1º dia – A Batalha
Os Mouros têm acesso ao Campo das Cavalhadas, com trajes vermelhos, pelo lado do nascente; Os Cristãos, com as cores azul e branco, se apresentam pelo lado do poente. Após o encastelamento (primeira parada), o rei Cristão tem sua atenção despertada pela agitação do espião Mouro em suas terras. Chama um de seus soldados e lhe diz o seguinte:
– Meu fiel Sargento Cerra-Fila, à minha presença!
O soldado sai por trás do Castelo e, parando diante do seu Rei, diz o seguinte:
- Monarca, Rei e Senhor.
Ordena-lhe o Rei:
– Vá às margens de nossa baliza em reconhecimento!
– Parto imediatamente a fim de cumprir vossa régia ordem.
O Sargento Cerra-Fila Cristão faz uma evolução em seu próprio campo e desmonta do lado contrário àquele onde se encontra o espião. Examina a direção do vento, atirando um pouco de terra seca para o ar, e em seguida parte rumo ao arbusto, sacando da arma e baleando o espião mouro, que deixa cair a máscara e sai rolando para fora do Campo das Cavalhadas. O disparo agita os dois grupos que, após a chegada do Sargento Cerra-Fila ao seu castelo, saem para a carreira de Reconhecimento de Praça, percorrendo apenas meio campo. No final dessa carreira, os mouros encontram o seu castelo desguarnecido das árvores que tiravam a visão dos Cristãos. É feita nova carreira, denominada Defesa de Praça, antes das primeiras embaixadas.
As embaixadas
A primeira embaixada parte do Rei Mouro, que chama seu representante oficial e diz:
– Meu fiel embaixador, à minha presença!
– Monarca, Rei e Senhor ! (diz apresentando-se o Embaixador).
– Vá às partes do poente, onde se encontra acampado o exército Cristão, e diz ao Rei que deixe a lei de Cristo e abrace a de Mafoma; que se isso fizer terá paz, honras e, sobretudo, a minha amizade. Mas, se esse partido não quiser abraçar, verá a terra tremer, os clarins romperem os ares, o bronze gemer, o sangue correr aos mares e o meu Mafoma vencer!
– Senhor, enquanto em meu peito conservar alento, hei de fiel cumprir vosso régio intento!
Acompanhado por dois soldados, o Embaixador Mouro sai rumo às terras dos Cristãos, sendo recebido na fronteira por dois soldados contrários. Diz-lhes o Embaixador:
– Sou o Embaixador dos Mouros e levo mensagem ao Rei Cristão!
Um soldado fica vigiando o emissário Mouro, enquanto outro volta ao seu castelo e se apresentando diante do Rei Cristão e diz:
– Monarca, Rei e Senhor! Nas nossas balizas tem um cavaleiro que se diz Embaixador!
– Como Embaixador, pode entrar! – responde o Rei.
Apresentando-se diante do Rei Cristão, o representante oficial dos Mouros diz o seguinte:
– Oh! Monarca esclarecido, o poderoso Sultão, que tal raio, qual trovão, neste mundo é tão temido, te comete por partido, que deixeis a lei de Cristo e abraces a de Mafoma; que se fizeres isto terás paz, honra e, sobretudo, a sua amizade em quanto é visto, mas, se este partido não quiseres abraçar, verás, oh Rei atrevido, a terra tremer, os clarins romperem os ares, o bronze gemer, o sangue correr aos mares e o meu Mafoma vencer.
Responde-lhe o Rei Cristão:
– Atrevidas e arrogantes foram as palavras que acabaste de pronunciar perante minha alta soberania e fidedignos vassalos de minha corte. Não fossem as leis do meu império, consagradas às três pessoas da Santíssima Trindade, aplicar-vos-ia o merecido castigo. Entretanto, voltai e dizei ao vosso Rei que não me assustam inimigas tropas, nem as terríveis ameaças com que pretende intimidar os fiéis e destemidos soldados do meu esquadrão e que em campo estou e em campo espero.
Retruca o Embaixador:
– Oh! Rei do juízo vário, outro acordo tomas! Abraça a lei de Mafona e não sejas temerário, pois se fizeres o contrário, já toda a paz se desterra, e eu serei na mesma, qual raio fulminante, que te reduz ao mesmo instante em pó, cinza e mesmo terra!
– Retirai-vos, desumano, antes que de vosso peito fraudulento o coração arranque.
Atrevidamente, o Embaixador encerra o diálogo com as seguintes palavras:
– Retiro-me sim, para não te ver, mas não por te temer!
Retornando ao seu castelo, o Embaixador apresenta-se diante de seu Rei Mouro e conta o resultado de seu contato com os Cristãos:
– Monarca, Rei e Senhor: mandaste-me às partes do poente. E lá, em um cavalo ricamente enfeitado, encontrei o Rei montado. Recebeu-me muito irado e disse todo indignado, que no campo de Marte está e no campo de Marte espera, onde vereis uma fera toda cheia de furor, qual raio abrasado, que vos fará cair por terra.
– Recolhe-te, Embaixador amado, que em breve serás vingado! – diz o Rei Mouro.
Concluída essa parte, o Rei Cristão toma as mesmas iniciativas do Rei Mouro, enviando-lhe um Embaixador, com as seguintes propostas:
– Vá àquele exército de Mouros e diga ao Rei que, por ti, saudá-lo mando e a dizer-lhe envio-te, para que deixe de Mafoma, desta vil seita infame e dos diabólicos ídolos, que tão firmemente idolatra; que se isto fizer, mediante as águas do Santo Batismo e pequeno tributo, ser-lhe-ei amigo. Vá e diga!
Apresentando-se diante do Rei Mouro, o Embaixador Cristão começa a transmitir a mensagem enviada por seu Rei:
– O glorioso Monarca Carlos Magno, Senhor de todo o Ocidente, protetor do Mar Sírio, do Magno Alexandre, do invencível Vaticano, a quem o vasto Império da Mauritânia deverá consagrar, oferecer e render culto, é o Rei Cristão, que por mim saudar-te manda e dizer-te envia-me para que deixes Mafona, essa vil seita infame e dos diabólicos ídolos, que tão firmemente idolatras; que se isso fizeres, mediante as águas do Santo Batismo, um pequeno tributo, será teu amigo e te concederá grandes honras. Mas se este partido tu não quiseres abraçar, verás, hoje mesmo, bárbaro, a tua soberba humilhada e abatida.
Com violência repele a proposta o Rei Mouro:
– Injuriosas foram as palavras com que te referiste ao Grande Profeta. Vale-te, entretanto, o indulto de Embaixador. Não fora isso, mandar-te-ia cortar a cabeça e colocá-la na mais alta torre de meu castelo, para servir de exemplo aos teus. Voltai e dizei ao teu Rei que rejeito as suas vis propostas e que desejo ter a sós, com ele, uma conferência, nas linhas de nossos domínios.
A resposta do Embaixador Cristão é a seguinte:
– Bárbaro! Enquanto a minha mão apertar a espada e o sangue nestas veias circular, nem tu, nem os teus me prenderão.
–Retira-te de minha presença, desumano, não queiras em mim causar o teu dano!
Na saída o representante Cristão repete as mesmas palavras do Embaixador Mouro:
– Retiro-me sim, para não te ver, mas não por te temer!
Voltando à presença de seu Rei, o Embaixador Cristão diz:
– Monarca, Rei e senhor, fui às partes do nascente, onde me mandaste, e lá encontrei o Rei mouro que, rejeitando vossas propostas, convida-vos a terdes à sós com ele uma conferência nas linhas de suas divisas.
– Recolhe-te, meu fiel Embaixador! A tua vingança a mim compete.
O encontro dos reis
Aproximando-se em sentido contrário, os dois reis se encontram no meio do Campo das Cavalhadas, cada um em terra do outro, quando se dá o seguinte diálogo, iniciado pelo Rei Mouro:
– De muito distantes terras me conduz, pelo meu Império e valor, para dizer-te um só passo não dês à frente, sem que primeiro me digas quem és, que lei professas e o que buscas pelas terras da Turquia.
– A figura que se me apresenta é, sem dúvida, a de um grande monarca. Mas as tuas perguntas te desmentem, pois não me mandaste dizer há pouco que desejavas ter uma conferência a sós comigo, nas margens dessas balizas? Como perguntas agora quem sou, que lei professo e o que busco pelas terras da Turquia? Não te satisfarei as exigências sem que primeiro me digas quem és, que Lei professas e o que buscas pelas terras do meu domínio.
– Eu sou o Grande Sultão, Senhor da Mauritânia, Senhor de meio Sol, meia luz e de todo o Mar Vermelho. Já disse quem sou, digas quem és!
– Eu sou Alexandre, dos heróicos príncipes da Europa o mais poderoso. Professo a Santa Doutrina de Cristo e adoro as Três Pessoas da Santíssima Trindade. És tu mesmo, Bárbaro, a quem eu busco. Vem comigo. Recebe as águas do Santo Batismo e, mediante um pequeno tributo, serei teu amigo e conceder-te-ei grandes honras.
Encolerizado com a proposta, retruca o Rei Mouro:
– Eu não quero tuas honras e nem troco as minhas pelas tuas. Só tenho a dizer-te que vieste neste campo para morrer e acabar a vida!
Jogando o animal contra o Rei Mouro, o Rei Cristão começa a desembainhar a espada e diz:
– Essa tua arrogância, soberba e fantasia, não se acaba com palavras, mas com o duro fio de minha espada!
Mostrando-se temeroso quanto ao ataque do Rei Cristão, o Rei Mouro encontra uma saída:
– Detém-te, oh Rei Cristão. Vou te cometer um partido!
– Diga qual é?
– Vamos ao campo de batalha pelejar. A lei do vencedor será firme e valiosa. A do vencido, falsa, infame e mentirosa.
– Muito me custa esclarecer-te uma verdade que tenho por certa, pela fé do Deus que adoro. Mas, como conto com a vitória, Bárbaro, toma campo, aperta a lança e faça por sem bom cavaleiro, que em breve te arrependerás.
– E tu morrerás! – concluiu o Rei Mouro, acabando com a conferência.
De volta aos seus respectivos castelos, os reis fazem preleção aos seus soldados, começando pelo Cristão:
– Amigos e fiéis companheiros, estamos empenhados no campo da batalha. A fé do vencedor será firme e valiosa. A do vencido, falsa, infame e mentirosa. Não temais que a vitória será nossa!
O Rei Mouro diz o seguinte ao seu exército:
– Fiéis e valentes companheiros: vamos ao campo da batalha pelejar. Chegou a hora de mostrarmos o nosso valor. Mauritanos, sigam-me que a vitória será nossa!
As carreiras do 1º dia
Terminando as embaixadas, iniciam-se as carreiras do primeiro dia:
1ª - Defesa de Praça: Uma fila de cada lado;
2ª - Escaramuça Grande: Uma fila de cada lado;
3ª - Batalhinha: Dois cavaleiros de cada lado;
4ª - União: Duas filas de cada lado;
5ª - Torno de Parelha: Dois cavaleiros de cada lado;
6ª - Torno de Quatro: Dois cavaleiros de cada lado;
7ª - Torno de Quatro Fios Fechados: Duas filas de cada lado;
8ª - 10 de Maio: Duas filas de cada lado.
Embaixadas de Trégua
Após a carreira denominada “10 de Maio”, o Rei Mouro manda pedir tréguas ao castelo Cristão por 24 horas, com a finalidade de recompor suas tropas e ao mesmo tempo estudar as propostas das primeiras embaixadas. Chamando o seu embaixador, diz o seguinte:
– Vai ao acampamento Cristão, e diz ao Rei, que por minha alta clemência, mando propor-lhe tréguas por 24 horas.
Diante do Rei Cristão, o Embaixador Mouro começa a transmitir a mensagem de seu Rei:
– O meu Soberano, por sua alta clemência, manda propor-te tréguas pelo espaço de 24 horas, para ver se nesse lapso de tempo reconcilie melhor, sujeitando-se assim, às condições de [ ... ].
– Basta! – interrompe o Rei Cristão – já te entendo. Volte e diz ao teu Monarca que lhe concedo a trégua que me propõe e que, amanhã, por estas horas, ele, tu e os teus, debaixo de minhas armas, estarão mortos ou prisioneiros.
Após este diálogo, saem do Campo das Cavalhadas os Mouros, que antes fazem uma pequena evolução em seu campo, e em seguida os Cristãos, com idêntica apresentação, terminando o primeiro dia de lutas.
2º dia - A Rendição
No segundo dia, entram os Cristãos em primeiro lugar e depois os Mouros. Os primeiros têm acesso ao Campo das Cavalhadas pelo lado esquerdo, alinhando em seus castelos. Após uma pequena pausa tem início a justa, com as seguintes carreiras:
As carreiras do 2º dia
1ª - Guerrilha:Duas filas de cada lado;
2ª - Castelinho:Dois cavaleiros de cada lado;
3ª - Napoleão:Duas filas de cada lado;
4ª - Fogo Negado:Duas filas de cada lado;
5ª - Batalhão:Uma fila de cada lado;
6ª - Castelinho de Quatro Fios:Duas filas de cada lado;
7ª - Novata:Duas filas de cada lado;
8ª - Arcancílha de Fogo:Um cavaleiro de cada lado;
9ª - Arcancílha de Lança:Um cavaleiro de cada lado;
10ª - Prisão:Uma fila de cada lado.
Batismo dos Mouros
Após a carreira que simboliza a prisão dos Mouros pelos Cristãos, começa o diálogo entre os dois reis.
Diz o Rei Cristão:
– Bárbaro, não lhe mandei avisar que hoje, sob as minhas ordens, e a esta mesma hora, tu e os teus estariam presos ou mortos. Pela fé que professo a Santa Doutrina de Cristo e às Três Pessoas da Santíssima Trindade, diz se aceita ou não as águas do Santo Batismo.
– Sim! Aceito as águas do Santo Batismo e reconheço o seu Deus como o único e verdadeiro! – responde o Rei Mouro.
Após este diálogo, os Mouros desmontam, já com os Cristãos empunhando as espadas que tiraram dos vencidos. Os Mouros se ajoelham enfileirados, sem capacetes, e recebem as águas do Batismo, abençoadas por suas próprias espadas que os Cristãos colocam sob os ombros de cada um. O Padre local toma parte dessa solenidade, dirigindo o ofício religioso.
Após o batismo, os Mouros recebem suas espadas e, novamente a cavalo, fazem o engrazamento (um Cristão e um Mouro em fila indiana) para a carreira do Ouvidor, que se encerra com a saída de todos, na mesma posição, pelo lado do castelo Cristão, terminando o segundo dia.