Benvindo a Pirenópolis
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Viagem à Província de Goiás

Auguste de Saint-Hilaire - fragmentos de relato histórico - 1819

Biografia

August de Saint-Hilaire Famoso botânico e naturalista francês, esteve em Meia Ponte (Pirenópolis) em 1819, por ocasião de uma viagem ao interior do Brasil. Seu relato é de grande importancia histórica pois, além de identificar e catalogar plantas, escreve com minúncias a região, os costumes e histórias da época.

Prefácio

Os três capítulos transcritos abaixo são de extrema importância para a história de Pirenópolis. Este viajante deixou dados preciosos e formou uma das poucas fontes sobre a população, meio-ambiente, economia e arquitetura da época. Estes três capítulos foram extraídos de extenso relato sobre quase todo o Brasil, por onde viajou no início do século XIX. O original é em francês e esta tradução é de Regina Regis Junqueira, São Paulo, Ed. USP, 1975. Boa leitura!

O Arraial de Meia Ponte

Entre Corumbá e Meia-Ponte andei sempre paralelamente aos Pireneus, que ficavam à minha direita. A região era montanhosa e mais cheia de mata do que a que eu percorrera antes de chegar a Corumbá. Moitas de capim ressequido surgiam por entre as pedras que cobriam o solo, e não se viam flores em mata alguma. Nas matas muitas árvores ainda conservavam suas folhas, enquanto outras se mostravam interamente nuas. O chão estava juncado dos delicados folíolos de vários exemplares de Mimosas.

Caminhei por algum tempo através de um planalto que encima um morro bastante elevado. É alí que a estrada da Bahia se junta à de Minas e do Rio de Janeiro que eu seguira até então. O caminho de descida do morro é pavimentado, o que na região constitui uma verdadeira raridade. Descemos sempre, durante o dia todo, e o calor se mostrou mais forte do que nos dias anteriores, principalmente no sopé do morro que acabo de mencionar.

Antes de chegar a Meia-Ponte mandei José Mariano à casa do vigário, a fim de que me arranjasse uma casa desocupada onde pudesse alojar-me. O vigário atendeu ao meu pedido, indicando-me uma casa bastante confortável.

Depois de instalar-me nela, fui apresentar a minha portaria ao comandante do arraial, de quem falarei mais tarde. Ele morava numa casa muito bonita e me recebeu numa sala bem mobiliada, imaculadamente limpa. Haviam quadros nas paredes, que eram pintadas até certa altura, depois caiadas até o teto. Um espelho pequeno, algumas mesas e um grupo de cadeiras dispostas caprichosamente compunham o mobiliário da sala.

Feita a visita, fui apresentar meus agradecimentos ao vigário, cuja casa era tão bonita e tão bem mobiliada quanto a do comandante. O que a tornava realmente notável era o asseio tipicamente holandês que se via nela. De um modo geral, essa é uma das qualidades que distinguem os brasileiros. Por mais pobres que sejam, sua casas quase nunca são sujas, e se eles possuem apenas duas camisas, a que trazem no corpo é sempre limpa.

O encantador arraial de Meia-Ponte é ao mesmo tempo sede de um julgado e de uma paróquia. Situado a 15º30' de latitude S., numa região de grande salubridade, na intersecção das estradas do Rio de Janeiro, Bahia, Mato Grosso e São Paulo, distante de Vila Boa no máximo 27 léguas e rodeado de terras extraordinariamente férteis, o arraial era um dos mais bem aquinhoados da província e o de maior população.

A extensão da paróquia de Meia Ponte é de cerca de 32 léguas no sentido norte-sul e de 20 de leste a oeste. Embora menos extensa que a de Santa Luzia, sua população é bem mais numerosa, contando com sete mil habitantes. Dela dependem duas capelas, a de Corumbá e a de Córrego do Jaraguá, que descreverei mais adiante.

O arraial foi construído numa pequena planície rodeada de montanhas e coberta de árvores de pequeno porte. Estende-se ao longo da margem esquerda do Rio das Almas, numa encosta suave, e defronta o prolongamento dos Montes Pireneus. Tem praticamente o formato de um quadrado e conta com mais de trezentas casas, todas muito limpas, caprichosamente caiadas, cobertas de telhas e bastante altas para a região. Cada uma delas, conforme o uso em todos os arraiais do interior, tem um quintal onde se vêem bananeiras, laranjeiras e cafeeiros plantados desordenadamente. As ruas são largas, perfeitamente retas e com calçadas dos dois lados. Cinco igrejas contribuem para enfeitar o arraial. A igreja paroquial, dedicada a Nossa Senhora do Rosário, é bastante ampla e fica localizada numa praça quadrangular. Sua paredes, feitas de adobe, tem 12 palmos de espessura e são assentadas sobre alicerces de pedra. O interior da igreja é razoavelmente ornamentado, mais o teto não tem forro.

Da praça onde fica situada essa igreja descortina-se um panorama que talvez seja o mais bonito que já me foi dado a apreciar em minhas viagens pelo interior do Brasil. A praça foi construída sobre um plano inclinado; abaixo vêem-se os quintais das casas, com seus cafeeiros, laranjeiras e bananeiras de folhas largas; uma igreja que se ergue um pouco mais longe e contrasta, pela brancura de suas paredes, com o verde escuro da vegetação; à direita há também casas e quintais, e ao fundo outra igreja; à esquerda vê-se uma ponte semidesmantelada, com um trecho do Rio das Almas coleando por entre as árvores; do outro lado do rio avista-se uma igrejinha rodeada por uma pequena mata, com grupos de árvores raquíticas mais além, confundindo-se com ela. Finalmente, a cerca de légua e meia do arraial o horizonte é limitado ao norte por uma cadeia pouco elevada, que constitui um prolongamento dos Montes Pireneus. Nela se vê um pico arredondado a que dão o nome de Frota, o qual se projeta acima dos morros vizinhos.

Enquanto que os outros arraiais contavam, no máximo, com um professor de primeiras letras, Meia Ponte tinha um professor de Gramática Latina pago pelo governo. Tenho minhas dúvidas, porém, de que fosse grande o número de seus alunos e de que seus ensinamentos dessem resultados práticos.

Assim como em Tijuco, no distrito dos diamantes, existe em Meia-Ponte um asilo dos Irmãos da Ordem Terceira de S. Francisco, os quais se encarregam de recolher as esmolas dos fiéis para manutenção do Santo Sepulcro. Por ocasião da minha viagem esse asilo contava apenas com um Irmão. A quantia reunida por ele era entregue a um tesoureiro leigo do próprio lugar, o qual por sua vez a enviava ao tesoureiro geral, no Rio de Janeiro, que também era leigo. É bem difícil acreditar que, após passar por tantas mãos, entre Meia-Ponte e Jerusalém, esse dinheiro chegasse intato a seu destino.

Como já disse, o clima de Meia Ponte parece muito salubre. À época do calor mais forte todos os habitantes do lugar -- homens e mulheres -- banham-se regularmente no Rio das Almas, o que contribui para mantê-los em boa saúde. A doença mais comum alí é a hidropisia, não sendo rara também uma forma de elefantíases a que eles dão o nome de morféia.

O local onde hoje está situado o arraial foi descoberto em 1731 por um certo Manuel Rodrigues Tomaz. Os primeiros que se estabeleceram ali foram os caçadores de ouro, que queriam explorar as margens do Rio das Almas. Entretanto, como o povoado que então se formou ficasse situado na junção das principais estradas da província e por ali passasse antigamente um grande número de tropas, os seus habitantes, certos de que poderiam vender proveitosamente os produtos da terra, logo desistiram dos trabalhos de garimpagem, da qual atualmente restam poucos vestígios. Foram eles, ao que parece, os primeiros em toda a capitania que tiveram a glória de se dedicar ao cultivo da terra. As matas, abundantes nos arredores do arraial, favoreceram o trabalho dos agricultores. Foram derrubadas pelos antigos colonos e substituídas por plantações de feijão e milho. Atualmente abandonadas, essas lavouras cederam lugar às capoeiras.

Ainda hoje a maioria dos habitantes de Meia Ponte se dedica à agricultura e como só vão ao arraial aos domingos, as casas permanecem vazias durante toda a semana. As terras da paróquia são apropriadas a todo tipo de cultura, até mesmo a do trigo, mais é principalmente com a criação de porcos e a cultura do fumo que se ocupam os colonos da região. Os rolos de fumo e o toucinho são enviados não somente para Vila Boa, mas também para vários arraiais do norte da província.

Como já tive ocasião de dizer, o algodão produzido ali é de excelente qualidade. Um homem sozinho é capaz de cultivar um algodoal numa extensão de terra que comportaria a semeadura de um alqueire de milho. Os algodoeiros começam a produzir suas cápsulas desde o primeiro ano, e é suficiente capinar a terra uma vez, anualmente. Durante o prazo de cinco anos não é feita nenhuma poda nos seus ramos, mas passado esse tempo cortam-se os que ficam um pouco abaixo do pé e tira-se uma parte dos rebentos. Passados mais cinco anos é feita uma segunda poda. Tratados desta maneira, os algodoeiros conseguem dar uma longa série de safras. Um algueire plantado de algodoeiros rende 100 arrobas de algodão bruto, quantidade essa que, depois de retiradas as sementes, fornece um peso líquido de 8 libras.

É bem provável que os arredores de Meia Ponte pudessem produzir também um vinho excelente, pois durante a minha permanência no arraial saboreei uvas deliciosas, presenteadas pelo vigário. Pertencem à variedade que os portugueses chamam de ferral. Desnecessário dizer que ali, como em Minas e provavelmente em todo o Brasil, as mudas de videiras são importadas.

Ainda que existam ao redor de Meia-Ponte mais terras do que seria possível cultivar e inúmeros córregos auríferos dos quais é fácil recolher um pouco de ouro, e embora haja escassez de braços para a lavoura e, em consequência, qualquer homem válido tenha possibilidade de encontrar trabalho, ao menos para prover ao seu sustento, não se consegue dar um passo no arraial sem esbarrar com mendigos. Vários deles, atacados de elefantíase, necessitam evidentemente de assistência. Outros são filhos naturais que poderiam trabalhar. Os fazendeiros mais prósperos de Meia-Ponte queixaram-se a mim do prodigioso números de mendigos que vagueiam pelas ruas do povoado. A maioria desse homens -- disseram eles -- poderiam ganhar a vida fazendo um trabalho útil. Mas como pedem esmolas dizendo pelo amor de Deus, ninguém tem coragem de negar, e assim se arraiga neles o hábito da indolência. Não há dúvidas de que esse sentimento tem algo de comovente e só poderia merecer louvores se fosse inspirado unicamente pelos infelizes que se acham atacados de uma moléstia repelente, a qual os afasta do convívio de seus semelhantes. Mas como podiam as bondosas pessoas que conversaram comigo sobre essas coisas acreditar que, ao darem a Deus uma prova de seu amor, estavam encorajando o vício?

Já disse que para chegar ao arraial de Meia-Ponte eu havia descido durante longo tempo. Enquanto permaneci ali o calor se tornou insuportável, o que me deixou em estado de grande irritação, aumentada pela fome que passei durante minhas várias caminhadas pelos arredores. O calor excessivo, ao que parece, teve também efeito negativo sobre os meus acompanhantes, pois eles se mostravam de um mau humor intolerável.

Antes de deixar o arraial (17 de junho) fui apresentar minhas despedidas ao vigário e ao jovem Padre Luís Gonzaga de Camargo Fleury, que eu já havia visto em sua companhia em Corumbá. Durante minha permanência em Meia-Ponte ambos me tinham cumulado de gentilezas. Fizeram-me várias visitas, durante as quais conversamos demoradamente. Luís Gonzaga era de origem francesa, como indica o seu nome de família. Tinha perfeita noção dos deveres que o sacerdócio lhe impunha, e de um modo geral achei-o bastante culto. Conhecia nossos bons autores franceses, lia muito uma de nossas histórias eclesiásticas e tinha algumas noções da língua inglesa. O vigário, que era ao mesmo tempo vigário da vara, reservara para si unicamente esta última função, dividindo a missão de conduzir suas ovelhas com o Capelão de Corumbá, com o do Córrego de Jaraguá e, finalmente, com Luís Gonzaga, a cujo cargo ficava Meia Ponte. Cada um dos três padres lhe entregava uma parte das rendas. Esse arranjo não era provavelmente muito legal, mas no que se refere à religião o Brasil, em geral, e a província de Goiás, em particular, estão fora de todas as regras.

Uma Fazenda Modelo

A 5 léguas de Gonçalo Marques parei na fazenda do comandante de Meia-Ponte, Joaquim Alves de Oliveira, para quem o governador da província me tinha dado uma carta de recomendação, tendo nessa ocasião feito grandes elogios a ele. A acolhida que me deu foi perfeita, e passei alguns dias em sua propriedade.

Joaquim Alves de Oliveira amealhara à custa do próprio esforço a sua fortuna, que era considerável. Tinha sido educado por um jesuíta, e parece que absorvera nessa escola o espírito metódico e equilibrado que o fazia sobressair entre os seus compatriotas. A princípio dedicou-se ao comércio, mas como tinha mais pendor para a agricultura, acabou por renunciar quase que inteiramente aos seus interesses mercantis. Não obstante, entregava-se ainda a transações comerciais quando esperava poder obter um lucro razoável. Assim, por ocasião de minha passagem por ali ele tinha acabado de enviar o genro a Cuiabá com uma numerosa tropa carregada de mercadorias variadas. Tinha, porém, o hábito de jamais falar com quem quer que fosse sobre os seus negócios, e ninguém ficava sabendo quando ele ganhava ou perdia dinheiro nas suas transações. Entre os brasileiros que conheci, era ele, talvez, o que tinha mais aversão à ociosidade. "Concedo a meus hóspedes", dizia-me ele sorrindo, "três dias de descanso. Ao cabo desse tempo, porém, descarrego sobre eles uma parte dos serviços da casa". As conversas de Joaquim Alves revelavam que ele era dotado de um grande amor à justiça e de uma religião sem mesquinhez. Era homem de muito senso, de uma grande simplicidade e de uma bondade extrema.

A fazenda, fundada por ele, nunca tivera outro nome a não ser o seu. Tratava-se, inegavelmente, da mais bela propriedade que havia em toda a região de Goiás que eu tinha percorrido. Reinavam ali uma limpeza e uma ordem que eu ainda não vira em nenhuma outra parte. A casa da fazenda era ao rés do chão e nada tinha de extraordinária, mas era ampla e muito bem conservada. Na frente, uma extensa varanda oferecia sombra e ar fresco em todas as horas do dia. O engenho-de-açúcar, conjugado à casa, fora construído de maneira que, da sala de jantar, pudesse ser visto o trabalho que se fazia junto às caldeiras, e da varanda, o que se passava no moinho de cana. Este último dava para um pátio quadrado. O corpo da casa se prolongava numa série de construções, que formavam um dos lados do pátio, nas quais estavam instaladas a selaria, as oficinas do serralheiro, do sapateiro, a sala dos arreios e, finalmente, a cocheira. Outro lado era construído pelos alojamentos dos escravos casados. Esses alojamentos eram cobertos de telhas e divididos em cubículos por paredes até certa altura. Um muro de adobe fechava os dois lados restantes do pátio.

A casa fora organizada desde o princípio com tamanha perfeição que o seu proprietário já não tinha, por assim dizer, necessidade de dar nenhuma ordem. Cada um sabia o que tinha de fazer e tratava de se colocar no seu posto de trabalho por sua própria conta. Para se fazer entender, bastava ao dono, se quisesse, dizer apenas uma palavra ou fazer um simples gesto. No meio de uma centena de escravos não se ouviam ordens gritadas nem se viam homens apressados andando de um lado para o outro, apenas aparentando grande atividade, mas na verdade sem saberem o que fazer. Em toda parte reinavam o silêncio, a ordem e uma tranqüilidade que se harmonizava perfeitamente com a que a Natureza costuma oferecer naqueles climas amenos. Dir-se-ia que um gênio invisível governava a casa. Seu proprietário ficava sentado tranqüilamente na varanda, mas era fácil ver que nada lhe escapava e que bastava um rápido olhar para manter tudo sob controle

As regras estabelecidas por Joaquim Alves quanto ao tratamento dado aos escravos consistiam em mantê-los bem alimentados e vestidos decentemente, em cuidar deles adequadamente quando adoeciam e em jamais deixá-los ociosos. Todo ano ele provia o casamento de alguns, e as mães só iam trabalhar nas plantações quando os filhos já podiam dispensar os seus cuidados. As crianças eram então confiadas a uma só mulher, que zelava por todas. Uma sábia precaução fora tomada para evitar, tanto quanto possível, as ciumadas e as brigas: os quartos dos solteiros ficavam situados a uma boa distância dos alojamentos dos casados.

O domingo pertencia aos escravos. Eles não tinham permissão para ir procurar ouro, mas recebiam um pedaço de terra que podiam cultivar em seu próprio proveito. Joaquim Alves instalara em sua própria casa uma venda onde os negros podiam comprar as coisas que geralmente são do agrado dos africanos. Nas suas transações o algodão fazia o papel do dinheiro. Dessa maneira ele livrava os escravos da tentação do roubo, estimulava-os ao trabalho acenando-lhes com os lucros de suas lavouras, fazia com que se apegassem ao lugar e ao seu senhor, ao mesmo tempo que aumentava a produção de suas terras.

Durante minha permanência na casa do comandante de Meia-Ponte visitei as várias dependências de sua fazenda, o chiqueiro, o paiol, o moinho de farinha, o local onde era ralada a mandioca e onde ficava instalada a máquina de descaroçar o algodão, a fábrica de fiação, etc. etc., e em toda parte encontrei uma ordem e uma limpeza incomparáveis. Os fornos do engenho-de-açúcar não tinham sido feitos de acordo com as especificações da técnica moderna. Seu aquecimento era feito pelo lado de fora, o que pelo menos tornava menos penosa para os trabalhadores a operação de cozimento. Um tambor horizontal movido a água punha em movimento doze peguenas máguinas de descaroçar algodão. Era também a água a máquina de ralar mandioca, da qual darei aqui uma descrição. A casa onde se achava instalada era construída sobre estacas e embaixo do assoalho fora colocada uma roda em posição horizontal, que era movida pela água que caía de uma calha em plano inclinado. O eixo da roda atravessava o assoalho e se elevava até certa altura, tendo na extremidade outra roda horizontal cujo aro era revestido por um ralo de metal. O eixo e a roda superior ficavam encaixados dentro de um quadrado formado por quatro estacas,cada uma das quais tinha uma chanfradura na parte interna, ao nível do ralo. Quando a roda começava a girar, quatro pessoas seguravam as mandiocas, encaixando-as nas chanfraduras. Tendo esse ponto de apoio, seus braços podiam manter-se firmes e a ação da máquina não sofria interrupção.

Numa parte de suas terras o comandante de Meia-Ponte tinha deixado de lado o método primitivo adotado geralmente pelos brasileiros em suas lavouras. Passara a usar o arado e adubava a terra com o bagaço da cana. Dessa forma não havia necessidade de queimar novas matas todo ano. A cana era replantada sempre no mesmo terreno, que ficava situado perto da casa para facilitar a supervisão do dono e poupar tempo aos escravos. O açúcar e a cachaça eram vendidos em Meia-Ponte e Vila Boa, mas o algodão era exportado para o Rio de Janeiro e Bahia. Joaquim Alves foi o primeiro, como já disse, a demonstrar a vantagem dessas exportações, e seu exemplo foi seguido por vários outros colonos. Por ocasião de minha viagem ele estava planejando aumentar ainda mais suas plantações de algodão e tinha intenção de instalar no próprio arraial de Meia-Ponte uma descaroçadora, bem como uma fiação onde pretendia empregar as mulheres e as crianças sem trabalho. Depois de descaroçado, o algodão da região, cuja qualidade é excelente, era vendido no local a 3.000 réis a arroba. O transporte de Meia-Ponte à Bahia custava 1.800 réis a arroba, e até o Rio de Janeiro 2.000. O lucro obtido com as exportações a esse preço era tão garantido que Joaquim Alves não vacilara em se oferecer para comprar, à razão der 3.000 réis, o algodão produzido por todos os agricultores das redondezas.

Ao dedicar sua atenção a um produto que podia ser exportado com proveito, o comandante de Meia-Ponte incentivava seus compatriotas a tomar novos rumos, indicando-lhes o que devia ser feito para arrancar sua região do estado de penúria em que a mergulhara uma exportação do ouro mal orientada. Enquanto ele agia de maneira prática, vários de seus concidadãos afirmavam que só havia salvação para a província numa idéia absurda apresentada por Luís Antônio da Silva e Souza. Segundo eles, a única maneira de deter a decadência sempre crescente da província seria impedir a saída do ouro para fora de suas fronteiras, criando-se para isso uma moeda provincial. Poder-se-ia argumentar, entretanto, que se essa moeda não tivesse valor como metal não haveria força humana capaz de lhe dar algum crédito. Se, pelo contrário, ela fosse de cobre, de ouro ou de prata, acabaria saindo da província de uma forma ou outra, por mais rigorosa que fosse a proibição, como acontecem todos os dias com o ouro em pó. Uma vez fora de suas fronteiras, porém, ela só seria aceita pelo seu valor intrínseco, e em conseqüência os comerciantes de Goiás passarão a vender suas mercadorias por um preço que compense a sua desvalorização. O ouro adulterado que circula em Goiás já pode ser considerado uma espécie de moeda provincial, pois só é aceito ali, e quando o comerciante o remete para fora ele se vê obrigado a reduzi-lo ao seu valor real, purificando-o, para em seguida reajustar os seus preços de acordo com a redução de peso sofrida pelo ouro.

Depois de tantas jornadas tediosas e cansativas através dos sertões, senti-me feliz por me achar numa casa que reunia todo o conforto que a região podia oferecer, onde eu gozava de inteira liberdade e cujo proprietário, um homem esclarecido, tinha por mim toda consideração. O tempo que passei na casa de Joaquim Alves foi muito proveitoso. Meus homens fizeram uma esplêndida caçada nas margens de uma lagoa situada nas proximidades. Quanto a mim, passei para o papel uma parte dos dados que recolhera sobre vários assuntos e obtive novas informações em conversas com meu hospedeiro.

Deixei a fazenda cheio de gratidão pela excelente acolhida que me deu o seu proprietário e me dirigi a Meia-Ponte, distante dali uma légua.

Os Índios Coiapós

Chegando ao alto da serra tive uma ampla visão de todas as terras ao redor e distingui nitidamente Vila Boa, ao longe, parecendo um oásis no meio de um deserto. Mais longe ainda, avistei os dois cumes dos Montes Pireneus."

"Antes de chegar à Aldeia de S. José avista-se de longe o povoado. Entediado pela triste monotonia da região, é com prazer que o visitante vê o encantador efeito produzido na paisagem pela série de construções regulares que contrastam com o aspecto selvagem e desértico das terras circunvizinhas.

Essa aldeia, habitadas pelos índios Caiapós, ou Coiapós, como se diz geralmente na região, não foi originalmente destinada a essa nação indígena.

Desde os primeiros tempos da descoberta de Goiás, os aventureiros que se espalharam por estas terras fizeram contra os índios as mais temíveis crueldades, e estes se vingaram muitas vezes por meio de represálias não menos terríveis. O governo português, geralmente generoso em relação aos índios, tomou-os sob sua proteção, expedindo ordens para que fossem tratados com doçura, mandando chamar jesuítas para que os catequizassem e civilizassem, determinando que não fosse poupada nenhuma despesa e se fizesse um inquérito contra os seus carrascos. É grande, porém, a distância entre Lisboa e Goiás, e essas medidas bem-intencionadas não surtiram nenhum resultado.

Não obstante, foram fundadas algumas aldeias, com grande dispêndio de dinheiro, entre elas as do Douro e de Formiga, perto do Arraial das Almas, na parte setentrional da província. Inicialmente, foi confiada a direção dessas aldeias aos jesuítas, que logo exerceram sobre os Acróas ali reunidos uma enorme influência. Todavia, cinco anos mais tarde foi instalada uma guarnição militar junto aos indígenas. Estes se revoltaram e a maioria foi massacrada.

No governo do Capitão-geral José de Almeida, Barão de Mossamedes, por volta de 1773 ou 1774, eles tornaram a se revoltar. os chefes foram executados, e o resto aprisionado e levado para as proximidades da capital, onde todos os cativos foram instalados numa aldeia construída em 1755 a 5 léguas de Vila Boa. Era a Aldeia S. José de Mossamedes, ou S. José, como é simplesmente chamada, nome dado em homenagem ao capitão-geral.

Os acroás não tardaram a se extinguir ou se dispensar, e por volta de 1781 foram substituídos pelos Javaés e os Carajás, trazidos da Aldeia da Nova Beira, no norte da província, os quais por sua vez não tardaram a desaparecer.

Enquanto esses fatos iam se sucedendo, outros ocorriam em diferentes partes do país.

Tão logo foi descoberta a província de Goiás começou a guerra entre os aventureiros paulistas e os índios Coiapós, que vagueavam a sudoeste da província por vastas extensões de terras praticamente inexploradas. A guerra de desencadeava com igual crueldade de ambos os lados. Os Coiapós atacavam de surpresa as tropas de burros que vinham de São Paulo, tendo forçado os portugueses a abandonarem vários postos estabelecidos por eles na parte setentrional da província do mesmo nome. As hostilidades se prolongaram até 1780, quando então um simples soldado chamado Luís, que tomara parte em várias expedições contra os índios, tomou a si o encargo, sob a proteção do Capitão-geral Luís da Cunha Menezes, de subjugar os Coiapós, tido até então como indomáveis. Acompanhado apenas de meia centena de portugueses e três índios, ele se pôs a caminho em 15 de fevereiro de 1780, embrenhando-se no território dos Coiapós. Durante vários meses esses destemidos aventureiros viveram apenas do que caçavam e de mel silvestre. Aproximavam-se, com sinais de amizade, de todos os Coiapós que encontravam e conversavam com eles ajudados por três intérpretes. Mostravam-se afáveis, davam-lhes presentes e por fim conseguiram convecer um certo número deles a acompanhá-los até Vila Boa para conhecerem o grande capitão, nome que os índios dão ao chefe supremo. Um grupo de cerca de quarenta pessoas, composto de um velho, seis guerreiros, mulheres e crianças, chegou à capital da província com o soldado Luís, sendo recebido com toda pompa possível. Organizaram-se festas, deram-se tiros de canhão, cantou-se um Te Deum e batizaram-se as crianças. O velho encantado com essa recepção, declarou que não voltaria mais para suas matas. Permaneceu em Goiás com as mulheres e as crianças, mandando os seis guerreiros de volta e lhes recomendando que retornassem á cidade, passadas seis luas, trazendo um grupo ainda maior. No mês de maio de 1781 duzentos e trinta e sete Coiapós fizeram sua entrada em Vila Boa sob o comando de dois caciques, tendo uma recepção semelhante à dos primeiros. O capitão-geral mandou construir para todos eles, a 11 léguas da capital, uma aldeia que recebeu o nome de Maria, em honra de D. Maria I, Rainha de Portugal. Ali se instalou uma população composta de 600 Coiapós. Parece que, a partir dessa época, as tropas de burros jamais voltaram a ser atacadas pelos índios na estrada de S. Paulo."

"Habituados nas matas a dormir em choças, nas quais só podem entrar agachados, os índios acharam muito frias as casas de teto alto e cobertas de telhas que lhe foram reservadas, e eles próprios construíram outras, mais baixas, a poucos passos da aldeia. O teto destas é feito de palha e a sua estrutura é a mesma das casas lusos-brasileiras, compondo-se de varas fincadas no chão e atadas com cipó a compridos bambus dispostos transversalmente. Mas, enquanto que os portugueses costumam tapar com barro os espaços vazios entre as varas cruzadas, os Coiapós se limitam a trançar folhas de palmeiras entre elas, como outros indígenas, tentando imitar as construções européias. As choças que os Coiapós construíram nas proximidades da aldeia não ultrapassam uma dezena. É a uma légua de S. José, nas suas plantações, que se encontra a maioria de suas moradas."

"O governo geral da aldeia é confiado a um coronel que mora em Vila Boa e dirige todas as aldeias da província. Os Coiapós se acham em S. José sob a tutela imediata de um destacamento militar composto de um cabo, que tem o título de comandante, de um simples soldado dos Dragões - ambos pertencentes à Companhia de Vila Boa - e de quinze pedestres, dos quais dois são oficiais subalternos. Entre os restantes encontram-se um serralheiro e um carpinteiro, sendo o primeiro encarregado de consertar as ferramentas dos Coiapós e o segundo de fazer as construções da aldeia. O cabo-comandante tem autoridade para punir os índios, amarrando os homens ao tronco e aplicando a palmatória nas mulheres e crianças. Os Coiapós cultivam a terra em comum, trabalhando cinco dias por semana, sob a supervisão do pedestre. A colheita é recolhida aos armazéns da aldeia e em seguida destribuída, pelo cabo-comandante, entre as famílias indígenas, de acordo com a necessidade de cada uma. O excedente é vendido à cidade ou aos pedestres, que são obrigado a custear seu próprio alimento. Com o produto dessa venda, o diretor geral compra sal, fumo, tecidos de algodão e utensílios de ferro, que envia ao cabo-comandante para que sejam distribuídos entre os indígenas. Há na aldeia um moinho de água que move ao mesmo tempo uma mó destinada a moer o milho, uma máquina de descaroçar o algodão e, finalmente, vinte e quatro fusos. Uma mulata recebe 50.000 réis por ano para ensinar as mulheres coiapós a fiar e tecer o algodão. O produto desse trabalho também pertence à comunidade, como os produtos da terra. Os dois dias de folga que tem os índios são o domingo e a segunda-feira, que eles aproveitam para caçar ou cuidar de pequenas plantações particulares de inhame e de batatas.

A forma de governo que acabo de descrever foi calcada na que havia sido adotada pelos jesuítas, e forçoso é admitir que ela convém aos índios, os quais, por sua total falta de previdência, são incapazes de governarem a si próprios. Mas não bastam apenas bons regulamentos. É preciso que haja também homens capazes de fazer com que sejam obedecidos, e não há ninguém que não perceba que é absurdo pretender conseguir com soldados o mesmo resultado obtido com missionários. Os jesuítas eram movidos por duas forças que sempre produziram grandes coisas: a religião e a honra. Eles teriam tido sucesso ainda que tivessem escolhido para os índios uma forma de governo mais imperfeita. Mas que se pode esperar de homens como os pedestres, todos eles mulatos e oriundos da camada mais baixa da sociedade, homens que não se deixam dominar nem mesmo pelo temor, pois vivem afastados de seus superiores, e que, mal remunerado, não têm outro objetivo senão o do se aproveitarem dos Coiapós em seu próprio interesse? Os índios se sentem insatisfeitos e fogem para as matas. São perseguidos e recapturados, mas tornam a fugir. Um único padre da Companhia de Jesus governava às vezes milhares de índios, enguanto que dezessete soldados mal conseguem manter reunidos duzentos Coiapós, sem nenhuma utilidade para o Estado e quase nenhum proveito para eles próprios."

"Os portuguêses deram, não sei porque, o nome de Coiapós ou Caiapós a esses indígenas. Pelo que me disseram, parece que um grupo deles, que ainda vive nas matas (1819), sem nenhuma outra tribo nas vizinhanças, não tinha nome que os identificasse, e por isso passaram a usar a palavra panariá a fim de se distinguirem, como raça, dos negros e dos brancos. De onde se deve concluir, ao que me parece, que essa palavra passou a ser usada posteriormente à descoberta, bastante recente, da região, e que antes dessa época os Caiapós provavelmente, se julgavam sozinhos no Universo.

São encontrados nesses indígenas todos os traços os traços característicos da raça americana: Cabeça grande, socada entre os ombros, cabelos lisos, pretos, duros e bastos, tórax largo, pele parda, pernas finas. As características particulares de sua tribo são a cabeça arredondada, a fisionomia aberta e inteligente, a elevada estatura, os olhos e a cor escura da pele. Os Coiapós são uma bela raça.