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A História da Imprensa Pirenopolina

A história da Imprensa Goiana tem seu início em Pirenópolis sob um olhar de resistência política e cultural, já em seu nascedouro, como um fenômeno social. Surgiu, em 1830, o primeiro Jornal Impresso da Província do Goyas no Brasil Império, o Matutina Meyapontense, no arraial de Meia Ponte, hoje Pirenópolis, em 05 de março deste mesmo ano.

A História da Imprensa Pirenopolina
Alguns exemplares de jornais das décadas de 70 a 2000

Por Herick Murad

Foi através do segundo Presidente da Província, marechal Miguel Lino de Morais, nomeado por carta imperial de 31 de janeiro de 1827, o encaminhamento ao Império Português do um ofício de 29 de abril de 1829, solicitando uma tipografia para a Capitania. Na época, a Província do Goyas estava com sua reservas e jazidas de ouro totalmente exploradas, falidas e sem nenhuma expressão política perante o Império. O pedido foi negado, julgando inconsequente tal solicitação e o veto ministerial chegou aos ouvidos do comandante geral do distrito de Meia Ponte, o Comendador Joaquim Alves de Oliveira, o homem mais rico da região.

Nascido em Pilar de Goiás no ano de 1770, Joaquim Alves, desde muito cedo iniciou-se na vida mercantil. Tornando-se um dos homens mais ricos do Brasil Colônia.

Exportava e importava mercadorias em vários comboios que eram vendidos em Cuiabá, São Paulo e Rio de Janeiro. Acumulou riquezas e financiava gastos do próprio bolso para o Governo Provincial. Era dono de grandes propriedades agrícolas, dentre elas destaca-se o Engenho São Joaquim, atual Fazenda Babilônia em Pirenópolis.

Defensor de Meia Ponte, título dado pelo poeta Florêncio Antônio de Fonseca Grostom, rico e viajado, o Comendador esbanjava idealismo e patriotismo. Muitos de seus atos de heroísmo foram cantados nos versos do poeta Florêncio.

Em 1811, com uma epidemia que assolou o arraial de Meia Ponte e o fato do veto ministerial, fizeram-no alavancar todo o idealismo libertador do Comendador, adquirindo a tipografia com seus próprios recursos no Rio de Janeiro, que chegou na Província do Goyas em 31 de dezembro de 1829.

O Museu das Bandeiras na cidade de Goiás, guarda o seguinte documento relatado por José Mendonça Teles no livro A Imprensa Matutina, Ed. CERNE. 1989. O qual se ler:

“Apresentou o Pe. Manoel Amâncio vindo do Rio as cargas que vieram por conta de Joaquim Alves de Oliveira, passadas do registro de Ouro Preto, Província de Minas, sessenta e hum fardos de fazendas, sacas com duzentos e vinte e sete arrobas (medidas da época), somando tudo, trezentos e quarenta e uma arrobas, um dito de aço com uma arrobas e vinte e nove (ilegível), importa a 1.125 Réis (moeda época) a arroba. Trezentos e oitenta e quatro mil , seis curdos e noventa; vinte e três caixas de molhados e dois Barris de Vinho a setecentas e cinquenta Réis a caixa ou barril importa em dezoito mil e setecentos; somando tudo quatrocentos e três, trezentos e noventa réis (403$390).“

Instalou-se a primeira tipografia em 31 de dezembro de 1829 no arraial de Meia Ponte, a Tipografia de Oliveira, e três meses depois nascia o Matutina Meyapontense, o primeiro periódico do Goyás. Naquele manhã de 05 de março de 1830, os meiapontenses foram acordados pelos gritos dos jornaleiros anunciando as manchetes do primeiro jornal goiano, o Matutina MeyaPontense. Na época, constava os primeiros nomes na ficha técnica do jornal: Pe. Luiz Gonzaga Fleury, ilustre pirenopolino, intelectual, homem culto que defendia os ideias liberalistas da época, foi redator chefe do Matutina junto com o Tenente Mariano Teixeira dos Santos, como tipógrafo. Neste mesmo ano, Joaquim Alves de Oliveira registra a ideologia e os princípios do Matutina:

“...A Liberdade de Imprensa estabelece uma base à segurança e obrigações do cidadão; é ela que faz amar a justiça, respeitar as autoridades e obedecer as leis; um povo instruído...” escreveu.

Logo no início, suas publicações eram distribuídas em dois dias da semana, às terças-feiras e sextas-feiras. A partir do número 25 até o 178, passou a circular três vezes na semana. Deixou de circular até o número 526 no dia 24 de maio de 1834.

Seu gesto de abrir as portas da consciência através da informação, fez abrir um caminho de luz para a história da imprensa do centro-oeste brasileiro. Viria a época reforçar os princípios da Revolução Francesa, secundado pelo movimento constitucionalista português de 1821; pregava os postulados liberais e combatiam abertamente o absolutismo. O grande redator, Pe. Luiz Gonzaga de Camargo Fleury, meiapontense, chegou a participar de passeatas cívicas e junto com o Comendador Joaquim Alves de Oliveira eram chamados de apóstolos do liberalismo.

Muitos fatores positivos vieram do nascimento do Matutina que contribuiram para o surgimento de outros periódicos da época nos arredores da Província de Goyas. Fatores esses que ao longo dos anos foram nascedouros de outros jornais e que puseram Pirenópolis na vanguarda da Imprensa Nacional.

Preciosos documentos eram registrados nas páginas do Matutina, como por exemplo a cobertura jornalistica da primeira Biblioteca do Estado de Goias, que se deu no arraial de Meia Ponte, hoje Pirenópolis (Matutina N°19); Os poemas de Silva e Souza; A criação da Sociedade Defensora da Liberdade de Meia Ponte; Considerado o primeiro grito em defesa dos direitos humanos e até o primeiro grito feminista, partindo de mulher residente em São João das Duas Barras, reclamando contra a discriminação feminina imposta pela Província. Na época, os embates políticos ocorriam por meio dos jornais, que não se limitavam aos debates gerais, partindo para questões pessoais e “ferindo a honra” dos digladiadores.

As temáticas em geral dos periódicos antigos giravam em torno dos direitos humanos; a libertação dos escravos às questões indígenas e também aos assuntos dedicados á religião e igreja veiculados à política através dos festejos religiosos.

Questões sobre meio ambiente já eram abordados nos periódicos antigos. No Matutina Meyapontense de 1830, n°10, são encontradas críticas referentes às queimadas e derrubadas de mata, em forma de denúncia contra o empobrecimento do solo. Em algumas edições é significativo o espaço ocupado com o “Catecismo da Agricultura”, no qual procurava ensinar os métodos mais adequados para o bom uso do solo.

Após o surgimento do Matutina, outros jornais foram surgindo ao passar dos anos, sendo tão importantes na geração de opinião no que tinge as qualidades e características do seu primogênito. Em 17 de julho de 1928 surge O Correio Juvenil e desapareceu em agosto de 1931. O jornal Pireneus foi fundado em 15 de julho de 1931, por José Assueiro de Siqueira, Ulisses Jayme e Braz Wilson Pompeu de Pina. Órgão político e literário, seu grande colaborador foi o poeta Augusto Rios. Deixou de circular em 1934, retornando em 1950.

A partir de 1950 até meados de 1970 não se tem notícias da circulação de periódicos em Pirenópolis, mas surge em 1976 O Mensageiro. Tinha como redator chefe Heraldo Jayme e depois vieram outros como; O Chumbo; O Pireneus; Gazeta Matutina; Nova Era; Folha de Pirenópolis; Pireneus Post, este sendo o último a se ter notícias de circulação periódica na cidade.

Não muito longe dos ideias liberais do Matutina, tais periódicos foram surgindo ao longo dos anos em Pirenópolis até não existir mais jornais impressos nos dias atuais. Com o avanço dos meios de comunicação e as novas tecnologias como computadores, internet, tablets e smartphones. O jornalismo impresso se tornou cada vez mais escasso, dando espaço para as mídias digitais. Só as grandes empresas de comunicação conseguem se firmar no atual mercado.

O Jornal digital toma forma através da internet com mais rapidez, eficiência e clareza na emissão das informações. Gerando constatantes opiniões através das rede sociais.

“Mas até hoje a sensação de ler um Jornal em papel impresso é melhor que a digital”, diz Mauro Cruz, fundador de dois jornais na cidade. Publicitário, blogueiro, gestor ambiental, redator do portal pirenopolis.tur.br, o primeiro site sobre Pirenópolis, fundou o jornal Pireneus Post no ano de 2003, junto com Reinaldo Amaral, e participou da edição de várias mídias impressas (livros, jornais e revistas) e eletrônicas nas décadas de 90 para cá. Ele nos conta o quão é difícil implementar um jornal impresso na cidade.

Não é difícil de se notar ao longo de mais de uma década a falta de um periódico impresso na cidade de Pirenópolis. As notícias comumente se espalham de boca em boca ou através de “carros de som” que além de transmitir anúncios publicitários, ainda realizam quase um ato cultural. São as chamadas de falecidos anunciados pelo alto-falante na cidade.

Uns dizem que o pirenopolino não tem a leitura como hábito. Outros dizem que os festejos religiosos, as cavalhadas a vida rural e pacata da cidade tomam conta do seu cotidiano mesmo sendo uma cidade turística atualmente.

Tantas histórias importantes sobre a imprensa goiana e principalmente a de Pirenópolis, que se torna quase impossível não resgatar tais fatos marcantes que contribuíram para o desenvolvimento sócio econômico da cidade. Casamentos, atos e decretos das assembleias da câmara de vereadores , festas e festejos religiosos, conversas de porta e etc. Faziam parte do conteúdo informativo dos periódicos da época. Resgata-se os bons costumes, as tradições marcantes, as culturas das famílias, suas profissões, seus comércios. Tudo girava em torno dos fatos relatados nesses periódicos impressos. O Jornal seja ele impresso ou digital, sempre será o espelho, a voz da cidade. Fonte de opinião e mediador dos discursos.

Fontes:

*Dossiê 200 anos da Imprensa no Brasil/ História da Imprensa Goiana dos velhos tempos da Colônia. À modernidade mercadológica. Rosana Maria Ribeiro Borges e Angelita Pereira de Lima . Revista UEG/Dezembro 2008/Ano X. N°5.

*A Imprensa chega ao Sertão: A Matutina Meia Pontense (1830/1834). Maria de Fátima Oliveira. Artigo histórico para o XXVII Simpósio Nacional de História (ANPUH). Natal-RN 22 a 26 de julho de 2013.

*A Imprensa Matutina. José Mendonça Teles . Goiânia: CERNE, 1989. 183p.

*Site www.pirenopolis.tur.br/O Matutina Meia Pontense - texto adaptado de Pirenópolis Coletânea 1727-2000p. Adelmo de Carvalho.

Colaborador: Mauro Cruz.

Fotos: Herick Murad e acervo de pesquisa do Google.

Mais informações em:O Matutina Meyapontense e Biografia de Joaquim Alves de Oliveira

Matéria publicada em 22/01/2018 às 14h32min.

Alguns exemplares de jornais das décadas de 70 a 2000
Mauro Cruz apontando a dat de 1976 do jornal Mensageiro
O Comendador
Nº 1 do Matutina Meyapontense
O redator Luiz Gonzaga de Camargo Fleury