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06/10/2015

Turismo Sustentável vs Turismo de Massa, uma solução premente

Muito se fala ultimamente sobre sustentabilidade, chega até a banalização. A não sustentabilidade parece ser o fim do mundo, que seria ações de hoje que gerariam esgotamentos de recursos, alta densidade demográfica, desequilíbrio climático, cataclismo, mortandade, doenças, miséria e guerra. Será? Porque nos assustamos tanto quando vemos uma multidão num ambiente natural e, após sua saída, presenciamos suas marcas deixadas, como lixos, pegadas, mato pisado e galhos quebrados? Pirenópolis corre esta ameaça? É isso o turismo de massa? O turismo de massa se contrapõe ao turismo sustentável?

Turismo Sustentável vs Turismo de Massa, uma solução premente
Cachoeira Santa Maria na Reserva Ecológica Vargem Grande

A reflexão é válida, ainda mais porquê nós temos na circunvizinhança de Pirenópolis cerca de 6 milhões de habitantes, com poucas opções de lazer e turismo. Nossa! Assusta mesmo, ainda mas para quem conheceu como era essa pequena cidadela há poucas décadas. Mas afinal, o que é o turismo de massa?

Pode-se dizer que o turismo de massa precede o turismo sustentável, até mesmo porque este último surgiu em função das consequências do outro. Por isso é bom que entendamos primeiro o turismo de massa: Após a segunda guerra mundial, com o incremento da produção industrial, desenvolveu-se um modelo econômico alicerçado na industrialização e no consumo de produtos. Com o passar dos anos o aumento demográfico, o surgimento de uma classe média com maior poder aquisitivo, a melhoria nos transportes e na comunicação fez com que se somasse ao consumo de produtos o consumo de serviços, em especial o de vivências e experiências, o turismo.

O turismo de massa é, portanto, um turismo majoritariamente de classe média, de uma sociedade assalariada ligada à produção industrial, ao comércio e ao funcionalismo público, que só pode se afastar de sua origem nos dias de folgas coletivas, como fins de semana, férias e feriados. Tal sistema econômico opera sob indicadores de produtividades que buscam alcançar o máximo de rendimentos dos trabalhadores, fazendo com que o lazer seja necessário à saúde e ao equilíbrio psicológico dos mesmos. Isso gera uma necessidade de extrapolação dos sentidos e fuga do cotidiano, até mesmo como forma de se afastar de seu ambiente e de seu cotidiano, supostamente opressores. A grosso modo, segundo Andreas Hauser, o turismo de massa possui 4 macrocaracterísticas: 1 – A cultura local é alterada; 2 – Os impactos ambientais não podem ser mitigados; 3 – O sistema econômico é dependente da atividade turística; 4 – Não há interesse pela maioria dos turistas em conhecer as pessoas, os aspectos culturais, a história e a biodiversidade local, apenas a autossatisfação; Olhando sob estes critérios, podemos concluir que Pirenópolis está bem próximo a ser um destino de turismo de massa.

Já o turismo sustentável surgiu com o conceito de desenvolvimento sustentável, que tem como regra básica a manutenção de um sistema social, econômico e ambiental que satisfaça as necessidades da geração atual sem comprometer os recursos para o uso de gerações futuras. O turismo sustentável, portanto, passou a ser uma alternativa para a proteção e preservação de destinos que não querem abrir mão de certas características sociais, culturais e ambientais que supostamente são ameaçadas pelos turistas. Não pretendo discorrer sobre sustentabilidade em si, cujo conceito penso ser um tanto controverso, mal conseguimos mensurar as necessidades atuais, quem dirá a das gerações futuras. Mas uma coisa é certa, o turismo sustentável é usado como argumento para combater o turismo de massa. No turismo sustentável a capacidade de carga é mensurada e controlada, há a preocupação com o meio ambiente, com informações sobre a natureza e interesse nas pessoas e nos aspectos sociais.

Enquanto o ecoturismo é considerado turismo sustentável, o turismo de sol e praia é considerado turismo de massa. Uma pergunta: no caso de Pirenópolis, podemos associar o turismo de cachoeiras ao turismo de sol e praia, onde as pessoas buscam espaços abertos de socialização junto ao frescor de banhos, sem preocupação com o social ou ecológico, ou ao ecoturismo, onde as pessoas buscam conhecer e respeitar as pessoas, a cultura e o meio ambiente? É um caso a pesquisar. Mas acredito eu que a maioria das pessoas não vão às cachoeiras como ecoturistas, mas como turistas de sol e praia, basta ver o estrago deixado em muitos locais de banho, públicos, abertos ou privados. E também os atrativos de Pirenópolis, salvo poucas exceções, são atrativos para ecoturistas, com controle de contingente, placas de informações e monitores.

Mas há como compatibilizar turismo de massa com sustentabilidade?

A meu ver, Pirenópolis não é uma equação fácil de resolver. Ela se configura como um destino complexo que reúne diversos tipos de turismo em diversos segmentos. Penso que é urgente a regulamentação local da atividade turística, até mesmo com um planejamento que considere os diversos públicos e os segmentos, sendo alguns atrativos, onde há uma norma de preservação, como o Centro Histórico e as áreas naturais e proteção ambiental, com rigoroso critério de capacidade de carga. Alguns atrativos, em especial as cachoeiras, não podem servir ao turismo descontrolado. São atrativos que utilizam recursos naturais protegidos, como a água de mananciais e as margens de rios, que são APPs – Áreas de Proteção Permanente, devem rigorosamente serem controlados com critérios de capacidade de carga e manejo ambiental. O Centro Histórico também deve ter suas limitações, até mesmo porque pelo espaço que dispõe não comporta trânsito excessivo. Outros poderiam ser destinados ao turismo de massa, com controle menos rigoroso, como resorts, parques temáticos e fazenda de lazer, desde que não estejam em áreas protegidas.

Concluindo, penso que o turismo de massa é sim compatível com a sustentabilidade. Até mesmo porque hoje não podemos conceber nenhuma atividade que não seja sustentável. São o turismo de massa e o turismo sustentável distintos como modalidade, uma vez que no turismo sustentável o rigor no controle é bem maior, melhor equipado, mais caro e mais restrito. Porém se considerarmos que o turismo de massa é algo inevitável, devido a pressão demográfica na circunvizinhança, e ainda que possa crescer de forma desmensurada e desordenada, os impactos ambientais e sociais nunca poderão ser mitigados. Mas havendo planejamento e controle, com expansão ordenada, até que se atinja um novo equilíbrio, levando em consideração que nossa região está em plena aceleração de crescimento populacional e que um dia há de se estabilizar, há a possibilidade sim de tratarmos o turismo de massa de forma sustentável. Mas para isso Pirenópolis precisa de um planejamento sério e competente, que envolva a sociedade e que preveja, ordene e promova a expansão de novos investimentos em equipamentos, atrativos e serviços. Esse é o desafio.

Mauro Cruz é guia de turismo regional Goiás especializado em Pirenópolis e proprietário da agência Morro Alto Turismo.

Matéria publicada em 06/10/2015 às 22h23min.