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22/06/2016

Transformações que ameaçam a casa colonial de Pirenópolis

É muito importante levar à ciência de todos o valor da preservação patrimonial. É claro. Mas para preservar tem que conhecer. É óbvio também. Parece que a preservação do patrimônio histórico e cultural é hoje um dogma, e não se discute. Assim como era impensável no início do século passado não derrubar um casarão velho de taipa, cheio de cupim, gambá, corujas, sem banheiro e sem garagem para automóveis e levantar, no lugar da velha casa, uma de tijolos e concreto armado, seguindo a moda do art-déco e do moderno. Quem, naquela época, queria um casarão velho?

Transformações que ameaçam a casa colonial de Pirenópolis
Exemplo de um autêntico casarão colonial

Mas Pirenópolis sobreviveu às várias transformações. Segundo uns, por causa do amor da população às suas tradições, à história e suas origens, e segundo outros, ao abandono e a miséria que a cidade se viu assolada nestes momentos de transformação, os idos do século XX. Melhor então considerar ambas assertivas.

Mas o que vemos hoje aqui em Pirenópolis é uma transformação que não está associada nem ao amor ao patrimônio nem à falta de recursos financeiros. Alguns dos fenômenos decorrentes da transformação urbana que se presencia neste momento e que altera profundamente aspectos importantes do patrimônio arquitetônico e cultural são o “fachadismo” e a “gentrificação”, que ameaçam a integralidade do que é uma casa colonial.

Para entender o fachadismo e a gentrificação, devemos antes de mais nada conhecer um pouco da arquitetura colonial de Pirenópolis. De um modo geral, a casa colonial pirenopolina é uma casa de taipa, toda estruturada em madeira e barro, onde pilares, vigas, telhados, portas, assoalho e janela são de madeira e compõe partes da estrutura e as porções de barro, como tijolos de adobe e parede de pau-a-pique são estruturas divisórias sem nenhuma função de sustentação, nem de janelas ou portas. Seria tipo uma gaiola de madeira preenchidas com barro. São também, geminadas, coladas às calçadas e com extensos e compridos quintais, que outrora dava saída pelos fundos e mantinham currais, pomar e horta. Praticamente toda casa colonial pode ser transformada em comércio. E assim é seu projeto, flexível, com possibilidade de abrigar um comércio à frente e residência aos fundos. Tanto que não é difícil transformar portas em janelas e janelas em portas, pois ambas são iguais em seus desenhos. Assim como as paredes internas, sendo de taipa de sopapo, possuem facilidade de construção e desconstrução. E é deste modo que a sociedade de Pirenópolis faz uso deste imóvel a centenas de anos, chegando a deter por diversos momentos históricos o status de centro comercial e fabril regional, fazendo da casa colonial residência e comércio.

A cidade de Pirenópolis, por sua vez, é tombada como conjunto arquitetônico, paisagístico e histórico. O que significa que o objeto primordial de preservação é o conjunto de todas as obras, incluindo o seu entorno, e não as construções individualmente, a sua estrutura física, uso ou função social. Este modelo de tombamento controla apenas as transformações das fachadas das casas no que interfere a sua aparência dentro do conjunto urbano. De modo que, há restrições e impedimentos em alterações de fachada e não há controle de transformações internas, desde que tais transformações não afetem a volumetria dos telhados, como obras em quintais que possam ser vistas da rua. Isto é, o proprietário pode fazer o que quiser da porta para dentro, só não pode alterar a fachada e a paisagem.

O fachadismo, portanto, é uma transformação derivada do modelo de preservação patrimonial imposto pelo Estado através do IPHAN, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. De residências-comércios passam a servir só comercialmente, como pousadas, galerias de lojas ou restaurantes, ou exclusivamente como residências, permanentes ou temporárias, neste caso passando a maior parte do tempo fechadas. Então a cidade mostra em sua feição uma cidade colonial, mas só na aparência, só na fachada. Os espaços vazios, terrenos baldios e as alterações nas fachadas que são diferentes do colonial são incentivadas e autorizados pelo IPHAN a fazerem conforme o estilo predominante, o colonial. Surgindo deste modo uma profusão de réplicas coloniais com elementos estranhos ao colonial original, mas que engana o observador mais atento. Aparentemente é um estilo colonial, mas não uma arquitetura colonial autêntica.

Já a gentrificação é um fenômeno que não é exclusivo de cidades tombadas, podendo acontecer em qualquer núcleo urbano. Trata-se da supervalorização do imóvel de uma determinada localidade ou bairro, o que ocasiona a evasão do morador tradicional, impossibilitado financeiramente de adquirir o imóvel, e a aquisição da casa e o consequente êxodo de pessoas de outra localidade com outra classe social, mais abastada, e outra cultura, que transforma a arquitetura e o uso do imóvel e suas relações humanas locais. Altera-se, neste caso, o convívio social e as relações de vizinhança, que podemos considerar como parte relevante da cultura de uma cidade. As casas perdem seu uso dentro de um contexto cultural local, sendo transformada internamente, perdendo paredes, ganhado suítes, perdendo pomares e ganhado piscinas, erguem-se muros e instalam-se cercas elétricas.

Na gentrificação, a tradicional casa colonial cujos elementos serviam aos costumes seculares de sua população é alterada e tais elementos subtraídos. Como por exemplo o corredor de entrada, a alcova, o varandão, o banheiro social e único, a pia na sala, o jardim interno e o quintal com fruteiras são elementos que cumprem uma função quando habitada por família tradicional. Já nesta nova aquisição, tais elementos são desnecessários e estranhos, sendo alterados ou subtraídos. O corredor de entrada perde sua função, não mais servindo de indicador de presença, estando sempre fechado; a alcova dá vez ao banheiro da suíte; a pia da sala some; o varandão vira quartos ou copa; e o jardim interno com flores e o quintal com fruteiras vira gramados com piscina. Resumindo, perde-se a casa colonial.

Mas será mesmo necessário a preservação da casa colonial? Como combater esses fenômenos que aparentemente afetam o dogmático conceito de preservação?

Ninguém teria mais autoridade em responder estas questões senão a própria sociedade. Afinal, é ela que detém esta cultura e herdou este patrimônio, e a ela cabe este cuidado. O IPHAN, como órgão de um estado republicano, deve atender as aspirações da população e não o contrário. Mas cabe a este órgão um diálogo com a sociedade, coisa que não existe, o IPHAN é um órgão impositor de regras, a maioria delas sem normatização, cujas análises tem forte juízo subjetivo, pouco técnico e muito menos didático. A reflexão sobre o tema é importante e a mobilização da população, seja via mídias sociais ou por entidades organizadas ou via instituições públicas, como o próprio IPHAN, conselhos, secretarias e câmara de vereadores para expressão de seu desejo deve acontecer, caso não queira, Pirenópolis, perder a casa colonial e outros estilos que hoje parece sem valor, mas amanhã quem sabe? Pois se nada for feito, hão de se extinguir.

Um exemplo: Paris - http://www.archdaily.com.br/br/759927/paris-anuncia-medidas-radicais-para-impedir-gentrificacao

Matéria publicada em 22/06/2016 às 14h35min.

Exemplo de um autêntico casarão colonial
Casa colonial com a fachada reformada, não autêntica
Réplicas fiéis com madeiras de demolição
Réplicas pouco fiéis
Réplicas do colonial feitas para comércio
Construção nova após demolição de casarão colonial. Novo estilo de guilhotinas internas e janelas externas.
Quintal onde haviam pés de frutas se transformando em edificações
Remanescente da habitação dos pretos, à venda.
Interior demolido e parte da fachada preservada
Casa coloniais com fachadas alteradas anteriores ao tombamento
E o moderno, não deve ser preservado?