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29/09/2017

São 290 anos de música em Pirenópolis

A cidade de Pirenópolis no Estado de Goiás completa, neste ano de 2017, 290 anos de idade. Desde a construção do povoado de Meia Ponte, em 1727, a música sempre esteve presente nos principais acontecimentos, tendo um papel primordial no surgimento da antiga Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte, tornando-se uma eterna fonte da vida social até os dias atuais.

São 290 anos de música em Pirenópolis
Banda Phoenix com Mestre Propício ao centro

Por Herick Murad

Apesar de distante dos grandes centros, Meia Ponte (nome original de Pirenópolis) consolidou-se como centro mercantil no século XVIII e XIX. Local de maioria portuguesa e de grande atividade comercial, trazia de longe as grandes novidades culturais da Europa. Logo, e ainda no século XVIII, Pirenópolis se tornou referência cultural do Centro Oeste, para onde efluíam contingentes regionais em busca de notícias, letras, artes e música. Por isso, a velha cidade de Meia Ponte é considerada como o Berço da Cultura de Goiás.

Se a fundação da velha cidade pode-se atribuir a Manoel Rodrigues Tomar, na música o destaque, segundo Belkiss de Mendonça, vai para José Joaquim Pereira da Veiga (1772-1840), como o músico mais antigo que se tem registro em Meia Ponte. O Padre Veiga, como era conhecido, foi Vigário Geral e Governador da Prelazia de Goyas e supõe-se que compôs várias árias das óperas representadas nos Festejos do Divino Espírito Santo. Das cópias por ele manuscritas existem várias sonatas e minuetos clássicos como: Trios de Bach copiados em 1815, Paul Wranisky, dentre outros. Mostrando assim o requinte e a qualidade musical da antiga Pirenópolis.

Segundo o historiador Jarbas Jayme, Padre Veiga foi quem organizou a primeira orquestra de Meia Ponte, em 1805, um conjunto musical de cordas, um quarteto formado por dois violinos, uma viola e um violoncelo.

A tradição cultural dos Festejos do Divino Espírito Santo, deu-se pelas mãos do Padre Manuel Amâncio da Luz em 1819, promovendo em 1826, a representação da primeira Cavalhada, introduzindo também os costumes de distribuir “verônicas” e pãezinhos ao povo. Supostamente considerado por Jarbas Jaime como compositor do Hino do Divino Espírito Santo, opinião contestada por músicos da cidade, que atribuem a autoria ao Tonico do Padre.

Em 1868, Padre Francisco, aproveitou os instrumentos de uma velha banda militar, montado pelo Comendador Joaquim Alves de Oliveira, e fundou a Banda Euterpe, cuja diração ficou a cargo de seu irmão, Antônio da Costa Nascimento, o Tonico do Padre.

Tonico do Padre é considerado o mais brilhante dos músicos de Meia Ponte de todos os tempos. Escreveu um grande número de missas, peças sacras, além de quadrilhas de dança e muitas outras obras, como lundus, polcas e valsas. Irmão do Padre Francisco Inácio da Luz, Tonico do Padre além de músico era pintor. Tinha o temperamento muito forte, mas deixou um material de grande valor para o patrimônio cultural da cidade. Colaborou, além da música, nos trabalhos de pintura do forro da capela Igreja Matriz do Rosário (patrimônio que se perdeu após seu incêndio em 5 de setembro de 2002).

Dirigiu a Banda Euterpe e compôs obras como: Urutau da Rua do Rosário; O sumo da cana; Tome Rícino, Vida de Soldado, dentre outras. Nas sacras destaque para; Te Deum (1862); Missa das Dores (1871); Hino a Santa Barbara (1827); Miserere ao Senhor Deus ao pé da Cruz (1894); Invocação ao Espírito Santo (1901); Ladainha ao Sagrado Coração de Jesus (1902), além de marchas fúnebres e várias quadrilhas.

Por ter um gênio forte, os companheiros de trabalho nunca o tinham visto com um sorriso na boca, mas o admiravam por suas exigências no aprimoramento da melhor execução de suas obras musicais. Esteve durante 35 anos à frente da Banda Euterpe até sua morte em 1903.

Um fato curioso é que Tonico do Padre compôs a época uma peça para Orquestra e intitulou-a “Concerto dos Sapos” em homenagem aos sapos do Rio das Almas. Ao executar a música em um concerto na cidade pela primeira vez, os músicos de sua banda não contiveram os seus sorrisos e gargalhadas a contragosto do seu criador. Intimidado, Tonico do Padre nunca mais executou a música.

Em seguida o bastão de direção da Banda Euterpe é passado para o Major Silvino Odorico de Siqueira, figura ilustre e integrante da política da cidade, foi vereador e Presidente da Câmara, vice intendente e intendente. Dirigiu a Banda Euterpe até sua morte em 1935. Seus 12 filhos, seis homens e seis mulheres não continuaram com a Banda e esta veio a desaparecer.

Músicos de grande reputação na cidade compuseram a cena das bandas na antiga Pirenópolis. Além de músicos, exerciam também outras atividades para o crescente desenvolvimento da província de Meia Ponte; políticos, pintores, comerciantes, cobradores, advogados, jornalistas e afins. Fizeram da música na cidade de Pirenópolis uma ferramenta de maior valor para o seu crescimento.

Pirenópolis foi se tornando um verdadeiro celeiro de famílias com tradições musicais. Destacamos alguns nomes dessa linhagem musical como:

Ormezindo Odorico de Siqueira (1878-1914) - executava requinta ou saxofone na Banda Euterpe.

Vasco da Gama Siqueira (1883) - foi político, compôs inúmeros dobrados, marchas, valsas, quadrilhas, galopes para Cavalhadas e marchas fúnebres. Era exímio na rapidez de suas composições e todos o admiravam. Compôs valsas intituladas Doralice; Liquirina; Iracildes; Rosinha e a Marcha Corumbaíba.

Gedeão de Siqueira (1885) - além de músico era marceneiro, juiz distrital, e promotor público interino. Ficou 70 anos tocando clarineta em todos os festejos, reinados e cavalhadas.

Agenislau de Siqueira, o Laláu (1892-1925) - segundo o historiador Jarbas Jayme, era o músico que mais tinha conhecimentos musicais da época. Executava cornetim, passando pela requinta na Banda Euterpe. Dentre as várias ladainhas e hinos religiosos em suas composições destaque para “Francisco José de Sá”, o mais conhecido.

Jonas de Siqueira (1897) - habilidoso relojoeiro tocava vários instrumentos, mas não compôs obras.

Orestes Donizeti de Siqueira (1901) - faleceu muito jovem aos 24 anos, enquanto viveu participou ativamente de toda a programação onde a banda se apresentava.

O Padre Simeão Estelita Lopes Zedes, fundador da Fazenda Babilônia, foi quem criou a segunda banda em Meia Ponte, chamada de Banda do Padre Simeão e ou Banda Babilônia. Como de costume da época, nas fazendas existiam capelas onde eram realizados os atos religiosos com música. Com sua extinção, seus instrumentos foram vendidos a um grupo de jovens, que, desejosos por formar uma banda na cidade, haviam pedido a Joaquim Propício de Pina que lhes ministrassem aulas de música. Mestre Propício, como passou a ser chamado, acedeu ao pedido e as aulas iniciaram-se em janeiro de 1892. E em 23 de Julho de 1893, surgia a Escola e Banda de Música Phoenix de Mestre Propício.

Aluno de Tonico do Padre, Mestre Propício dedicou-se à Banda Phoenix ministrando as aulas gratuitamente e por muitas vezes socorreu seus integrantes com dinheiro do próprio bolso. Como intendente municipal dedicou-se com zelo a gerir os destinos de sua cidade, além de abrir mão dos subsídios que o cargo lhe conferia. Nenhuma de sua descendência dedicou-se à música.

Um fato muito curioso na história da música pirenopolina e causa de muitas discórdias e gargalhadas no meio musical da cidade por longos anos foi a disputa entre as Bandas Euterpe e Phoenix. Rivalidades dentro e fora da música marcaram acontecimentos como a história de Antônio de Sá, antigo aluno de Tonico do Padre, que permeava entre as duas bandas, tocando ora numa banda ora noutra. Aumentando mais ainda a tensão existente entre as bandas. A cada transferência de banda, Antônio de Sá levava consigo músicas compostas especialmente para determinado conjunto, criando-se situações muita embaraçosas que culminaram em um grande desentendimento entre os componentes das duas bandas, havendo uma luta corporal onde um dos músicos enfiou um bumbo na cabeça de outro da banda adversária. Essas disputas eram ocorridas pois as duas bandas eram as únicas que em tempos de eleições faziam os comícios dos candidatos à época. Então cada banda tinha consigo um partido para brigar por seus interesses. E as duas sempre foram adversárias.

Antônio de Sá assinava suas composições com o pseudônimo de “Gaspar Hauser” e faleceu aos 26 anos de idade deixando obras religiosas de grande fertilidade tais como: Hyno a S. Vicente (1903); As dores da Virgem Pia (1901); Proteção de Maria; Missa do Sagrado Coração de Jesus (1902); Deus, Deus meu! (1903). Foi também poeta, pintor e jornalista. Publicava seus trabalhos literários em um pequeno jornal que circulava pela cidade.

Outro nome em destaque que compõe a história da música em Pirenópolis é o de Otacílio Ferreira. Promotor Público da Comarca do Bom Fim, foi músico da Banda Phoenix em 1930 , executava flautim, requinta e clarineta. Na orquestra do coro da Igreja era seu instrumento a flauta. Foi membro fundador da Orquestra Ideal como clarinetista e músico do 6° batalhão de Caçadores onde tocava flautim. Suas composições destacam-se: Vida de Candango - estilo rancheira, gravada pela Odeon; Normalista - estilo valsa; no campo religioso é autor de Vinde Santo Espírito; Que fria era a noite; Glória e Cantos dos Marianos, com Letra de Antônio Caputo.

Impossível falar sobre a música de Pirenópolis e não deixar alguém de fora. Podemos citar Antônio José da Silva (1705-1739), um dos mais importantes dramaturgo português do século XVIII, conhecido como “O Judeu”. Segundo uma tradição oral, este fazedor de óperas veio se refugiar em Meia Ponte por perseguição da Inquisição e por aqui representou e deixou algumas árias, que eram apresentadas até pouco tempo atrás. Mas isso talvez não passe de boataria.

Ainda na contemporaneidade tivemos grandes músicos e maestros, como Braz Wilson Pompeu de Pina Filho (1946-1994), jornalista, pianista, professor, maestro e compositor. Dentre as diversas formações que regeu, foi diretor e regente da Orquestra Sinfônica de Goiás. As memórias de Bidoro, Clóvis, Ita e Alaor ainda ressoam vivas nas lembranças de Pirenópolis.

Vemos que a história da organização social da cidade de Pirenópolis, a música é um fator primordial em todos os aspectos. Um povoado que nasce às margens do Rio das Almas, fazendo brotar vidas através dos seus costumes, culturas e crenças. Em cada casa levantada, cada telhado erguido, cada pedra colocada nas calçadas e nas ruas, em cada praça construída com seus coretos, em cada igreja levantada, a música se fez presente, em todos os momentos até hoje nesta cidade.

A música para Pirenópolis é o combustível natural de sua existência, é o deleitar-se em seu paradisíaco espaço terrestre, com suas folias, cortejos, missas, novenas, quadrilhas de cavalhadas, catiras, serenatas, etc. Formam o alicerce deste magnífico universo em uma perfeita organização social através da música.

A cidade considerada Patrimônio Nacional completa 290 anos. E está entre as cidades de Goiás mais visitadas pelos turistas de várias localidades do Brasil e do mundo. Esse crescente número de visitantes gerou também uma crescente alta no comércio local, com o estabelecimento de vários restaurantes, pousadas e centros de lazer para turistas. A essa crescente demanda acarretou a migração de músicos de outras partes do país e do mundo para se estabelecerem por aqui e mostrar seus trabalhos artísticos. Pirenópolis, portanto, é hoje um celeiro dos mais variados ritmos musicais. Se antes ouvia-se missas, ladainhas, operetas, quadrilhas, lundus, catiras, valsas e polcas em manifestações públicas e religiosas, hoje se vê muitos músicos em conjuntos musicais apresentando-se em bares e restaurantes. Vários com CDs autorais gravados e reconhecidos em turnês. Contudo, pode se ver alguns artistas divulgarem seus trabalhos em praças e coretos da cidade passando o chapéu para garantir sua renda.

Dos tempos do século XIX, o trabalho da centenária Banda Phoenix vai se perpetuando ao longo dos tempos e é a única banda sinfônica da cidade. A escola e banda de música luta para garantir seu espaço e sua sobrevivência. Passa por contínua dificuldade financeira e estrutural, e só se mantém por ajuda de voluntários e músicos apaixonados. Entretanto, consegue manter-se firme nos eventos importantes da cidade, chegando até a tocar de graça. Pena que sua função educadora, tão importante para nossa sociedade, esteja tão prejudicada por pura falta de um mísero recurso para se manter professores.

Apesar da grande história cultural e principalmente musical, e ainda por manter viva em seus tradicionais músicos atuais o legado das missas em latim, árias, valsas, polcas e lundus do século XIX, esse patrimônio imaterial anda um pouco desprezado pelo Estado. A exemplo deste Canto da Primavera de 2017, que, mesmo sendo um evento voltado à musica goiana, não deixou espaço para os músicos locais ou alguma singela referência histórica ao legado musical da cidade. A Prefeitura de Pirenópolis ainda não possui um projeto de apoio para sustentar esses trabalhos ou a cultura musical da cidade. Segundo o Conselho Cultural da Pirenópolis, ligado a Secretaria de Cultura, estão sendo avaliados projetos para serem beneficiados com incentivos financeiros vindo do Ministério da Cultura, em conjunto com a SEDUCE-GO.

Com isso, esperamos que num futuro bem breve possamos ver e ouvir um pouco mais deste patrimônio e valorizar os músicos que aqui residem, vivem e sobrevivem. Quem sabe teremos no futuro a Banda Phoenix em sede própria com um Museu da Música, onde estará bem guardado todo o acervo das antigas bandas, que hora embolora em gavetas.

E aqui deixamos um breve registro da história musical e do surgimento da cidade Pirenópolis nos seus 290 anos. E desejamos que continue sempre sendo referência cultural para várias gerações.

Parabéns Pirenópolis!

Herick Murad, jornalista formado pela Universidade Federal do Maranhão – UFMA, produtor musical e morador de Pirenópolis.

Colaborador: Mauro Cruz

Fontes consultadas:
A Música em Goiás de Belkiss Mendonça e
http://www.cidadedepirenopolis.blogspot.com.br de Adriano Curado.

Matéria publicada em 29/09/2017 às 13h25min.

Banda Phoenix com Mestre Propício ao centro
Banda Euterpe