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03/10/2007

Pirenópolis faz anos. Mas, quantos?

Ao excursionar pela historiografia goiana e pirenopolina, eis que me deparo, de primeiro, com o princípio. Parece óbvio, até mesmo redundante, senão retórico. Mas, não é. Quem é que sabe quantos anos tem Pirenópolis?

Pirenópolis faz anos. Mas, quantos?
Ilustração de Rugendas (século XIX)

Segundo conceituados historiadores, como Luis Palacin, Paulo Bertran, Luis d'Alincourt, Cunha Mattos e o renomado August de Saint-Hilaire, Pirenópolis foi fundada em 1731. Outro, como nosso conterrâneo Jarbas Jayme, aponta para 1727. Oras bolas! Não há documento comprobatório, senão, pura especulação? Vai de quem me convencer melhor, então. Para o pirenopolino é mais vantajoso e carismático manter a tradição e assinar junto com o historiador oficial de Pirenópolis, o Sr. Jarbas Jayme. Segundo o tal, Meia Ponte (antigo nome de Pirenópolis), foi fundada em 1727  e que “esse acontecimento deve ter-se verificado a 7 de outubro, dia consagrado a N.S. do Rosário, padroeira de Pirenópolis.” e ainda faz alusão a um certo costume sertanista de dar o nome do descoberto ao santo do dia. Não quero eu, de modo algum, desmerecer o magnífico trabalho de Jarbas Jayme, nem credencial tenho para tanto e até acho a data de 1727 mais coerente com os fatos. Porém, em vista disso, divulga-se erroneamente por aí, ainda que não seja a versão de Jarbas Jayme, que o bandeirante Tomar chegou com sua bandeira aos 7 de outubro de 1727, dia de N.S. do Rosário e então colocou o nome de Minas de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte. Lindo! Idílico! Não é? Não, não é. Primeiro que Manuel Rodrigues Tomar nem era bandeirante, era português mineiro, minerador, rico e abastado possuidor de escravos e lavras. E o mesmo, segundo cartas reais portuguesas, sua presença só foi deflagrada por esse rincões após 1731.

De outro modo, também não devemos desprezar informações dadas pelo conceituado quinteto de opositores a data de 1727. Mas a confusão está feita. Cada qual tem seu argumento. Aos defensores da data mais remota, a de 1727, está o fato de que existe um documento de registro de batismo datado de março de 1732 "nesta Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário de Meia Ponte". Como pode ser uma igreja do porte desta nossa matriz ser construída tão rápido, em poucos meses? Será que não podia ser apenas uma capela? Além de que, se caso estivessem chegado por aqui os primeiros colonizadores em outubro de 1731, segundo a suposta tradição sertanista,, esta mãe estaria de no mínimo uns 3 meses de gravidez. Conseguiria ela, grávida, fazer aqueles longos e árduos deslocamentos em lombos de mulas? Demorava-se pelo menos 3 meses de viagem para vir de São Paulo. E o padre? Demorava-se anos para que um povoado minerador do interior destes ermos sertões tivesse um padre. Mas ele poderia ter vindo com a bandeira, não poderia?

De outro lado, dando de 5 contra 1, temos a argumentação pautada em documentos oficias, cartas régias e relatos históricos. Luiz D’Alincourt, o mais antigo de todos, esteve em Meia Ponte em 1818 e disse que "Foi este Arraial fundado em 1731" [veja o relato de Luiz D'Alincourt]; August de Saint-Hilaire, esteve em Meia Ponte logo em seguida, em 1819. [veja o relato de August Saint-Hilaire] e afirma que "o arraial foi descoberto em 1731 por um certo Manuel Rodrigues Tomaz", mas não cita a fonte da informação; Raymundo José da Cunha Mattos, coronel, nomeado Governador das Armas esteve em Goiás no ano de 1824 e escreveu a Corografia Histórica da Província de Goiás, afirma que o arraial "foi fundado em 1731 por Manuel Rodrigues Tomáz" (o erro ortográfico, presente no escrito deste e do Saint-Hilaire, que diz Tomáz ao invés de Tomar, como está nas cartas oficiais, nos leva a supor que a fonte possa ser a mesma, talvez até D'Alincourt); Paulo Bertran, assim como Palacin, firma-se em cartas régias datadas de 1732 onde o governador relata os descobertos e El Rey reclama sobre falta de notícias [veja História da Terra e do Homem no Planalto Central].

Bem. Ai, caramba! A farofa está misturada, agora só falta pilar. Há pouco tempo a cidade de Anápolis comemorou seu centenário. Pensei: mas como? Não é o povoado de Santana das Antas anterior a 1885? É que a fundação para os Anapolinos se deu em 31 de julho de 1907 quando a vila foi emancipada e conduzida a cidade. Ora pois, se acaso formos então considerar a emancipação de Meia Ponte como sua fundação, o que teoricamente é bem lógico, uma vez que antes desta data não passava de um distrito subordinado a uma sede, assim como é Lagolândia ou Malhador, distritos de Pirenópolis, ela só se deu oficialmente em 1739, quando foram criadas as Comarcas do Norte e do Sul com seus respectivos julgados, no nosso caso: Julgado de Meia Ponte com sede, ou melhor dizer, Cabeça de Julgado, o Arraial de Meia Ponte.  Desta feita, temos várias datas a considerar: 1727, 1731 ou ainda 1739.

Concluindo: é óbvio que uma colonização naqueles velhos tempos de antanho, não se fazia de uma feita, demorava um pouco, tudo era longe e havia muita pouca coisa registrada, o que o povo queria era o ouro e não queria pagar tributos. Portanto, acredito eu, já que a história humana é uma viagem, que provavelmente já havia pessoas morando em Meia Ponte em 1727, ou até mesmo antes, mas de forma ilegal, ou melhor dizer, não oficial. Depois teve o reconhecimento e a oficialização que só se deu em 1739. Antes disso, isso aqui não passava de um arraial que fazia parte da Capitania de São Paulo, pois nem Goiás existia (Goiás virou capitania em 1749). Mas, cá entre nós, para os pirenopolinos, festejamos neste dia de Nossa Senhora do Rosário, dia 07 de Outubro o aniversário, sempre contados a partir de 1727, afinal de contas, Pirenópolis é uma cidade histórica e não pode ficar para trás. A data que não foi oficializada pelo El Rey ou seus governadores, foi então pelo povo pirenopolino com a ajuda de seu historiador conterrâneo, nada mais propício e oportuno. Só falta agora o prefeito querer decretar.

Matéria publicada em 03/10/2007 às 22h40min.