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03/07/2014

O controle do belo e os ornamentos do templo

Finalmente uma luz surge no final do túnel. Desde o incêndio da Igreja Matriz de Pirenópolis, que consumiu em chamas todo o seu interior, em 2002, discute-se sobre a ornamentação de seu interior, principalmente em relação aos altares laterais e aos quadros da via-sacra. Várias já foram as iniciativas feitas por moradores e fiéis para a ornamentação desta igreja, considerada a mais antiga igreja de Goiás e o primeiro monumento tombado do Centro-Oeste. [Conheça mais sobre esta igreja]. Mas todas as tentativas sempre foram reprimidas pelos técnicos do IPHAN, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Até mesmo abaixo-assinados foram feitos visando demover e sensibilizar os irredutíveis servidores do instituto. Os motivos dos embargos são sempre vagos. As respostas, esquivas por sinal, são sempre a mesma: É complicado; é uma questão técnica; existe alguns conceitos que não permitem. Mas nunca uma resposta clara à população, passando longe dos princípios constitucionais fundamentais da administração pública, como transparência e publicidade.

O controle do belo e os ornamentos do templo
Dr. Eudes Forzani, benemérito doador das obras de artes.

Mas, o povo não desiste. O dr. Eudes Forzani, dono do laboratório de análises clínicas da cidade, encomendou de seu tio, o renomado e famoso pintor Pérsio Forzani, um belo conjunto de 15 obras em óleo sobre tela para compor a via-sacra na igreja. Obras prontas, o generoso doutor as doou à igreja para que fossem dependuradas nas paredes para a Semana Santa de 2014. O feito durou poucas horas. Sob ameaça foram removidas e começa-se novo embate. Um desperdício. Um despautério.

Ânimos acirrados, o embate continuou. Semana passada foi feita uma reunião sobre o assunto com a participação do presidente do IPHAN que aceitou a argumentação de que a igreja, apesar de ser tombada como patrimônio nacional, é usada secularmente como templo religioso católico e seus elementos artísticos fazem parte do culto e do patrimônio cultural. Ufa! Será que foi preciso desenhar?

E ontem, dia 02/07, foi realizada uma missa em homenagem ao artista Pérsio Forzani e a entrega oficial dos quadros à Paróquia, com toda pompa e circunstância, com banda de música, hino nacional, convidados ilustres e autoridades presentes, dentre eles, os chefes do IPHAN: Salma, Sílvio e Maurício. Aproveitando a palavra, o doador Eudes solicitou à Salma, superintendente regional do IPHAN, que os quadros pudessem ser imediatamente fixados na igreja. A resposta da Salma, no momento de sua voz, era que fosse feito um projeto dos altares laterais e das molduras dos quadros da via-sacra, pois ambos tinham que “conversar” entre si e com os elementos da igreja. Pode? Tem que ter projeto, passar pelo crivo dos técnicos do IPHAN para ver se as pinceladas do Pérsio “conversam” com as paredes de taipa. Coisa que para os pirenopolinos soa mais como um impropério do que com cuidados ao patrimônio. Haja paciência. E olha que o povo de Pirenópolis é paciente mesmo, viu? Complacente também. Coisa do Divino, só pode. Noutros lugares já tinham chutado esse povo para longe.

Na minha singela opinião, isso não passa de vaidade. Funcionários públicos se apoderando do poder de polícia para controlar o cinzel dos artistas. Agora então o Estado vai ditar a moda? Determinar o belo? Ser o dono da estética? Valha-me Deus! É o público (na verdade alguns meros agentes) tentando se apoderar do privado, do íntimo de uma sociedade. Não deveriam seguir os princípios constitucionais da legalidade, transparência e publicidade? Os servidores públicos do IPHAN, servidores que são, não deveriam nos apresentar argumentos técnicos embasados em normas? Ao invés disso, tentam nos controlar com justificativas subjetivas como “conversar com”, conceitos vagos e evasivas. Tá errado, muito errado. Talvez seja por estas razões que o IPHAN de salvador do patrimônio tornou-se o vilão do povo. Arbitrário castrador de artistas e expressões arquitetônicas e culturais tradicionais, temporais e espontâneas. Tão afastado como odiado pela sociedade. Se melhor se comunicasse, poderíamos entender seus propósitos. Senão, vai de acordo com a cara do freguês. Né?

Veja também

Pérsio Forzani, um exemplo de determinação e amor à cidade e sua cultura.

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, a fênix renascida.

Matéria publicada em 03/07/2014 às 11h23min.