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04/06/2011

Mascarado: Herói ou Vilão

Enquanto para uns é apenas uma brincadeira, para outros é um acinte, uma ameaça. Mas para mim o negócio é mais embaixo, ou melhor, mais para dentro, mais profundo. O assunto em voga em Pirenópolis é sobre a decisão judicial que impõe a prefeitura a obrigação de cadastrar e numerar os Mascarados das famosas Cavalhadas de Pirenópolis. Então, deixo aqui minha opinião: uma alusão freudiana feito por um pensador leigo.

Mascarado: Herói ou Vilão

Por definição, folclore é o conjunto de costumes e tradições de uma sociedade expressadas através de lendas, contos, provérbios, canções, brincadeiras, artesanatos, festas e outras tantas. Todas essas manifestações são, na verdade, traduções de valores e conceitos das pessoas de um determinado grupo, alguns tão enraizados e ocultos que são extraídos de áreas do subconsciente e inconsciente da coletividade. É isso mesmo, Freud explica.

As Cavalhadas é uma das manifestações folclóricas que melhor expressa a realidade local e atual, por incrível que parece, apesar de ser secular, é super atualizada. E não só de Pirenópolis, mas de todo o Brasil. Afinal, cavalhadas têm por todo o território nacional. Grosso modo podemos fazer comparações e usar as cavalhadas e seus símbolos para descrever nossa sociedade e o próprio homem. Como a nossa sociedade, a cavalhada está dividida em dois estratos: os Cavaleiros, que representam uma elite social, simbolizada pela encenação de reis e soldados e seus camarotes privados e erguidos, local da corte dos nobres, políticos e autoridades; e os Mascarados, que representam a população geral, simbolizados pelas máscaras, personagens, o povo desorganizado, camelôs, ranchão e fumaça dos churrasquinhos.

Enquanto entre os Cavaleiros encena-se uma luta ordenada e repetitiva entre dois partidos: esquerda e direita, posição e oposição, eterna luta entre o bem e o mal, reafirmando a ordem e a lei imposta pela espada, de número reduzido e limitado, apoiados e assistidos por regras explícitas, cheios de pompa e circunstâncias, entre os Mascarados existe uma incógnita, uma desordem, o anonimato, a irreverência e a liberdade. O Mascarado representa o Homem livre das vaidades e determinações dos políticos, podendo tirar de seu âmago valores e posicionamentos ocultos e proibidos. É a fuga da rotina enfadonha e sem criatividade. Para os Cavaleiros a festa é a encenação, uma dança de quadrilha organizada e ritmada. Para os Mascarados a festa é algazarra, protesto, rebeldia, irreverência e espontaneidade.

Olhando profundamente dentro de nós mesmos somos na verdade Cavaleiros e Mascarados. Possuímos em nós, no íntimo de nossa psique, estas partes. Precisamos ser cavaleiros no dia-a-dia. Precisamos da ordem, da lei, de superiores, de chefes, de governo. A sociedade precisa disso, de reis e comandantes. Este é nosso superego. A disputa entre o anjinho bom, os cristãos, e o anjinho mau, os mouros, que na nossa novelinha fantasiosa, ao final, o bem sempre vence, submetendo o mal e, melhor, convertendo-os, como bons cristãos. É este superego que dita nossos valores e determina ordens na eterna e imutável disputa entre o bem e o mal. Tal e qual a encenação das Cavalhadas.

Já o Mascarado, dentro de nossa psique, representa o alterego, a identidade secreta, o amigo oculto, aquilo que gostaríamos de ser, nosso super-herói, um Chapolim Colorado. O Mascarado é livre, irredutível, indomável. Até mesmo sua definição e origem são imprecisas. Poucas são as coisas certas que se pode dizer do Mascarado, quiçá só uma, o fato de ele estar com máscara. Fora isso, o que é o Mascarado? Precisamos também de ser mascarado, pois é isso que nos distingui, alimenta nosso Id e nos infla e liberta nossa a alma. Mas assim como acontece nos quadrinhos, acontece dentro da gente e acontece nas Cavalhadas: hora o mascarado é um herói, hora um vilão; hora nos diverte, hora nos atormenta; hora é amigo, hora é bandido.

Para concluir, posso dizer que este embate ainda dará muito pano prá manga. Neste momento opiniões se dividem e muitas perguntas surgem: É o Mascarado vilão ou herói? Se vilão, é o promotor, o acusador, então, o herói? Se herói, o Mascarado, quem é o vilão? Por mais incrível que parece, e olha que não é coincidência, quem nesta nossa sociedade pode fazer o papel de nosso alterego? Não seria o Ministério Público? Não é o Ministério Público a máscara do cidadão que o protege de abusos e ações, dos quais ele, como sociedade, não teria condição de se defender e faz, desta forma, o papel de super-herói? O mais gozado é que se analisarmos profundamente veremos que o Ministério Público hora faz o papel de herói, hora de vilão e nessa nossa sociedade ninguém mais indicado para ocupar o lugar de alterego do povo. Por sua vez, o Juiz fez o papel dele nesta festa, é o poder perseguindo a desordem, o superego tentando controlar o alterego. Basta, por fim, sabermos se os Mascarados de Pirenópolis vão se submeter ao controle, a organização, tal e qual os Cavaleiros, ou permanecerão Mascarados, anônimos, uma incógnita desordenada e sem controle, como deve um Mascarado ser.

Quanto à segurança, coitada essa esquecida nessas linhas a própria motivadora dos autos das acusações, já é problema de polícia. Façam ronda, aumentem o efetivo, dêem baculejos nos mascarados. Protejam os Mascarados verdadeiros e aprendam a identificar os falsos. Não se assustem, saibam olhar para festa e procurem compreendê-la. Mas não deixem a originalidade dos festejos acabar, pois fosse a Festa do Divino Espírito Santo de Pirenópolis igual a de Corumbá ou Palmeiras, não teria ela sido elevada a Patrimônio Imaterial Brasileiro.

Matéria publicada em 04/06/2011 às 19h22min.