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26/12/2005

Interpireneus Golfe Clube - Vantagens e desvantagens

O Interpireneus é um projeto de um Clube de Golfe a ser implantado a 13km de Pirenópolis, na região das Contendas, saída para Goianésia. O projeto prevê um campo de golfe de 80 hectares e como infra-estrutura do clube: centro eqüestre, áreas de práticas esportivas, piscina, bares, restaurantes etc. Também contará com uma área pública onde haverá hotéis, condomínios, vilas de apartamentos e um núcleo urbano com comércios, bancos, farmácia etc. Tudo dentro de uma área particular de 114 alqueires.
Para que empreendimento deste porte fosse possível, houve até a necessidade de mudanças na legislação, feita através da lei complementar 007/05 (vide matéria), que anexou ao Plano Diretor uma Zona de Desenvolvimento Turístico, com várias permissões, entre elas a possibilidade de construções de até 30 metros de altura.

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Vantagens

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Econômicas
As vantagens deste empreendimento na área econômica são significantes, uma vez que a soma deste investimento é altíssima e criará oportunidades de empregos, diretos e indiretos, para a população. Sócios culturais Com a vinda de pessoas de outras regiões e de estrangeiros, será inegável a contribuição através de novos conceitos e informações.

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Tecnológicas
Empreendimento de tal porte introduz técnicas de turismo e hotelaria, esportes e paisagismo que, com certeza, serão transmitidos aos funcionários contratados através do convívio e cursos específicos.

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Desvantagens

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Meio ambiente
É com certeza a principal e mais agravante das desvantagens. A interferência antrópica no meio, para empreendimento de tal desenvoltura, é extensa. A começar pela extensa área de plantio de grama.
Solo: Como espécie exótica requererá, sem sombra de dúvida, de pesadas aplicações de herbicidas e pesticidas, além de maciças dosagens de adubação, o que contribuirá substancialmente para a contaminação dos lençóis freáticos de uma extensa área de nascentes e aqüíferos, como é o caso deste local. A adubação usada em gramas é, preferencialmente, a nitrogenada, que, por ser compostos altamente solúveis, favorece a salinização do solo. É necessário, para se manter a grama sempre verdinha, de cerca de 10 aplicações de adubos ao ano com dosagens acima de 700 kg/Ha. Para os campos de golfe é necessário que se mantenha sua umidade controlada, portanto costuma-se retirar todo o perfil do solo até no máximo 60cm, onde se coloca um perfil de alta granulação, tipo brita, de 6 a 8cm, e por cima desta, terra vegetal, podendo ser esta exportada ou utilizada a do local e tratada. Por ser solo de cerrado, ácido e com alto teor de alumínio tóxico, as alterações serão profundas, para que se adeque às exigências das gramas especiais para a prática deste esporte, modificando toda a microbiologia, flora e fauna deste solo.
Biologia: Às transformações do solo soma-se a redução drástica dos agentes biológicos responsáveis pelo equilíbrio de pragas e doenças, possibilitando a inserção de pragas e doenças estranhas, que não encontrarão predadores naturais facilitando sua propagação, ameaçando a fauna, flora e plantações da região, principalmente se a grama for plantada em placas, com solo e plantas adultas estranhas ao meio. Também se costumam usar, em campos de golfe, espécies de grama transgênicas, cujas interferências ao meio são pouco estudadas na região. A irrigação em espécies nativas do cerrado durante o período das secas pode, em conseqüência das alterações biológicas do solo, gerar doenças e apodrecimento das raízes e conseqüente morte de certas espécies, pois é sabido que a seca serve como forma de esterilização do solo.
Água: Outro grande problema, já identificado pelos campos de golfe de todo mundo, é o alto consumo de água. Tanto que será necessário o represamento de córregos e nascentes para a construção de um grande açude, que também será utilizado para a prática de esportes náuticos. Segundo Manuel Sanches Villanueva, da GEM, Espanha, o consumo de água de campos de golfe na Espanha e da ordem de 300.000 a 560.000 m3/ano, que, segundo o autor, são dados subdimensionados, fornecidos pelas empresas de golfe. Como temos na região, épocas extensas de seca extrema é certo que tais cifras podem chegar a dobrar.
Fauna e flora: Como toda plantação requer a supressão da cobertura vegetal nativa, a redução e a alteração da biodiversidade é certa. Além de que a introdução de espécies exóticas interfere na cadeia alimentar e, portanto, no interrelacionamento das espécies nativas.
Lixo urbano e esgoto: Mesmo com programas de aproveitamento de resíduos sólidos e líquidos, para adubação e irrigação, há sempre a produção de lixo quando se forma aglomeramentos humanos.

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Sociais
Para a sociedade há a ameaça do crescimento populacional. Exemplos mostram que grandes empreendimentos trazem cerca de 80% de mão de obra externa para sua fase de implantação, através de convênios com empresas especializadas e tercerizações. Parte deste contigente fixa moradia na cidade que, após o término da fase de implantação, perdem a função e se vêem desempregados. Em sua fase de operação, por ser empreendimento voltado ao público estrangeiro, exigirá de mão de obra especializada, principalmente no quesito línguas, exigência do tipo de produto, que não poderá ser satisfeito por mão de obra local. A promoção e a publicidade, em vista de atingir a opinião pública, atraem desempregados em busca de oportunidades, principalmente em relação à Pirenópolis pela a qualidade de vida que lhe é atribuída, favorecendo a migração e o surgimento de desempregados e bairros pobres. O fator desigualdade social e segurança também deve ser considerado. Com a chegada de pessoas com alto poder aquisitivo, a tendência do aumento de desigualdade pelo distanciamento das classes e pelos fatores acima descritos, é premente. E o aparecimento de pessoas mal intencionadas em roubos de tais pessoas aumenta, aumentando a criminalidade. É também plausível a preocupação com os tipos de atividades paralelas, que comumente aparecem com o turismo internacional e de jogos (vide a Lei complementar e as atividades de jogos, como o bingo, que foi permitida na área), a exemplo da prostituição e o consumo de drogas.

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Conclusão e sugestões

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Dentre as vantagens e desvantagens acima citadas, devemos nos preocupar, mais precisamente, com o fator ambiental e o social, pois é comum que o interesse econômico, na maioria dos casos, se interpõe às questões socioambientais. Devemos redobrar a vigilância, pois o poderio econômico compra a cumplicidade de políticos gananciosos e gera informações errôneas propositais. É certo que há vantagens, porém estas não devem servir de argumentos que justifiquem a perda da qualidade de vida, tanto pelo modo social como pelo ambiental, da nossa querida Pirenópolis. A sociedade, a despeito do que já foi feito com a lei complementar, deve exigir a discussão com os poderes públicos sobre a implantação, ou não, e a operação deste empreendimento. Portanto, olho aberto pessoal!

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Como sugestão, penso que esta grama deva ser plantada através de sementes esterilizadas, e não com mudas ou plantas adultas com terras estranhas, para evitar a contaminação e proliferação de outras espécies exóticas indesejáveis. E que também não sejam usadas sementes transgênicas. A irrigação deve ser feita apenas na superfície da grama, não se estendendo as áreas de cerrado nativo (rough). O paisagismo do clube e de todas as adjacências deve ser feitos com plantas nativas do cerrado, para favorecer a fauna. Deve se fazer um monitoramento, pelos órgãos públicos fiscalizadores, em relação à adubação, tendo em vista a salinização do solo e a contaminação das águas subterrâneas. Todo o lixo e esgoto devem ser tratados e aproveitados para adubação e irrigação. Deve-se garantir, antecipadamente, a formação, com cursos e treinamentos, à população local para a absorção de mão de obra do empreendimento, na sua fase de implantação e operação, em vista de se evitar a migração e posterior desemprego. Deve ser proibida a prática de jogos e reforçar a vigilância ao turismo sexual. Em tempos de seca forte, se houver problemas de esgotamento dos aqüíferos, a irrigação do campo de golfe deve ser suprimida e procurar outras alternativas de contenção de evaporação do gramado. E que, como forma de compensação ambiental, seja extendida em 10% a área de reserva legal, sem comprometer as APPs, e que os loteamentos urbanos tenham 20% de área verde.

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Matéria publicada em 26/12/2005 às 18h52min.