Benvindo a Pirenópolis
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Edna Lucena, a pioneira da Rua do Lazer

Edna Lucena nasceu em Maceió e foi criada no Rio de Janeiro. Veio para Pirenópolis em 1983 e montou o primeiro comércio voltado ao lazer, com restaurante e música ao vivo, o Aravinda, incentivando o turismo e, por que não dizer, um dos primeiros empreendimentos em Pirenópolis a atender o turista. É, sem dúvida, a pioneira da Rua do Lazer e merecedora deste título, tanto que a Rua do Lazer é também, por muitos, chamada de Rua do Aravinda. Vida longa a Edna.

[Entrevista] Quando chegou o rock´n roll.

Bar e Restaurante Aravinda

- Edna, conta pra gente como foi que você chegou aqui? Como foi ser a pioneira na Rua do Rosário, conhecida agora como Rua do Lazer?

- Foi uma coincidência, cheguei aqui e gostei, me apaixonei. Ai eu falei: como o movimento era só lá em cima, lá na Praça Central, vou fazer o movimento contrário. Diferente. O povo só ia para a praça, eu fechava às 10h da noite, sem brincadeira, 10h morria tudo. Aí um dia começou uma meninada a cantar aqui, começou a ter som ao vivo e o negócio começou a pegar e foi pegando.

 

- E de principio você mexia com o quê? Como era seu estabelecimento?

- Era de roupas indianas, comecei com roupa indiana. Não tinha alimentação, alimentação foi na primeira festa do divino que aconteceu, aí eu transformei em restaurante. Isso foi em 1983.

 

- Você comprou essa casa já pensando nisso?

- Não, à principio a gente estava com a história de comunidade, aí a gente comprou uma terra. Comprei uma casa aqui na rua porque eu queria ter um comércio, mas não era pensando num restaurante ainda não, estava no papo de ter terra, telúrico, né? Ter comunidade. Fiquei nessa viajem. Primeiro eu comprei aqui, depois a terra.

 

- E na rua? O que existia quando você chegou?

- Duas vendas, a do Seu Joaquim e a do Seu João, Figueiredos, os dois Figueiredos, e não tinha mais comércio não, só tinha residência, a rua era bem família, residencial bem tradicional. Então eu engravidei, aí resolvi montar um entreposto de produtos naturais, os amigos vinham pra cá, eu tinha um fogão de lenha, cada um deixava uma coisa e eu cozinhava pra eles e eles falavam que nossa sua comida é maravilhosa. Eu tava cozinhando pra todo mundo e todo mundo ia para cachoeira. Aí eu disse: espera aí! aqui é um ponto e eu estou marcando toca, o povo vai pra cachoeira e eu fico aqui cozinhando pra eles de graça? Então eu deixava a comida lá em cima do fogão de lenha, foi assim que começou. Aí pronto, no primeiro feriado, que foi a da festa do Divino, eu fiz um uma experienciazinha, aí deu certo.

 

- No fogão a lenha?

- É no fogão a lenha. Antes era no fogão a lenha, aí só tinha o PF, o pratinho do dia, mas o povo amava, era tudo de bom, e eu na cozinha, na cozinha e no caixa. O caixa era no fogão a lenha mesmo, tinha assim uma caixinha pequenininha, fazia um suco ali e tinha umas meninas para me ajudar, só pra lavar os pratos, para eu cozinhar para eles. Assim no começo, depois eu fui ensinando as meninas, aí foi crescendo, crescendo.

- E você abria de noite?

- Não, eu fechava às 10h da noite.

- E vendia bebida alcoólica?

- Não, mas a gente começou a vender porque o povo comprava ali na venda do Seu Joaquim, no Seu João e trazia para cá a cerveja. Aí eu disse: espera aí! Tem alguma coisa errada.

- Mas o Seu Joaquim e o Seu João já estavam aqui antes de você?

- Estavam, estavam aí, a venda deles é antiga, era um quase de frente para o outro. O Seu Joaquim era onde é a Chiquinha e o Seu João onde era o Varandas Bar.

- E o Varandas Bar era anterior ao Aravinda?

- Não o Varandas veio depois, veio uns quatros anos depois. Antes de mim só tinha a venda do Seu Joaquim e do Seu João, não tinha mais nada na rua, de comercio não, ainda bem. Aí eu comecei a vender a cervejinha por causa disso, coloquei a cervejinha e depois começou a musica ao vivo. Aí comecei a colocar os destilados, um outro lado da vida, foi uma coisa que eu não gostei, mas consegui tirar agora, agora só tem a cervejinha e o vinho, estou resgatando.

- E o povo da cidade o que eles achavam?

- Eles não vinham não, porque era o bar da "bruxa". Meu publico era os "hippies". Aí chegou o pessoal da filmagem do filme Republica dos Anjos, os artistas vinham para cá, o pessoal da canoagem também eram meus clientes, aquele bando de carros com as canoas em cima. Quando o pessoal do cinema começou a vir aqui, o povo da cidade começou a vir também, para ver os artistas. Aí o bar da "bruxa" virou um bar normal.

- E como era o turismo aqui em Pirenópolis naquela época?

- Era muita farofa, porque a beira do rio era liberada, era um horror. O povo vinha de Goiânia e Brasília. Depois que ficou assim, nacional, internacional, foi proibido o acampamento na beira do rio, e também começou a ter uma infra que não tinha, mais pousada, mais restaurante.

- E depois de você quem veio?

- Primeiro foi o Varandas, depois começou a ter as lojinhas também, a Líla esteve aqui do meu lado, a Glorinha e o Tatu. Primeiro foi a Glorinha e o Tatu, ao meu lado, Denise, a Lila também esteve nessa rua.

- E a Laura veio quando?

- A Laura veio bem depois, não lembro quando ela veio, mas quando ela veio o Pippo (Caffé Tarsia) já tava ali em baixo, ainda era pequenininho. A gente fazia festa junina todo ano. O Pippo começou a colocar umas fitinhas, todo mundo colocava umas fitinhas do lado de fora e fechavamos a rua. Fazíamos um trabalho com a população para fechar a rua, o meu objetivo sempre foi realizar o calçadão, e ainda falta virar calçadão.

- E quando surgiu a idéia de fazer a Rua do Lazer? De fechar a rua e colocar as mesas na rua?

- Desde o começou, o Luís Armando foi o prefeito na época (1996), ele começou a apoiar a gente, a fazer reuniões.Ele liberou, tivemos o apoio dele, tanto que fez um decreto ( Decreto nº. 614/97). Quando ele foi eleito passou aqui na rua, me chamou e disse que o decreto ia sair. Aí foi aprovado pela câmara, o Rogério Figueiredo (prefeito de 2006/09) deu uma força..Aí começou, foi parando os processos.

- Processos judiciais? Você recebeu muitos processos?

- 23 processos ao todo, a maioria era barulho. Eu acho que fazia mais do que o Konski, porque o povo não reclamava do Konski, mas do Aravinda... (risos) O Aravinda incomodava! (risos). O barulho era rock, antigamente eu era roqueira, e atraía os músicos, todos viam parar aqui e eles diziam: Edna qualquer coisa tá bom.. Tocavam por alimentação, faziam "couvert" bem baratinho, eles queriam vir pra Piri para tocar no Aravinda. Era o sonho dourado deles, era tudo de bom, era saudável, a galera dançava, aqui na rua todo mundo dançava, era a coisa mais linda. Mas criou certo desconforto para os moradores da rua porque era tudo residência, mas depois foram saindo, virando comércio, e quando chegou o momento, que tinha mais comércio que residência, pronto, aí eu consegui entrar em um acordo com a lei, então liberou, agora tá liberado, mas agora eu parei com o barulho, agora estou zen, eu estou sempre ao contrário da energia.

- Mas além do barulho, você sentiu alguma resistência, em vista de xenofobia, de ter uma cultura diferente?

- Ah, mulher sozinha, né? Agora a única coisa que eles não conseguiam, enquadrar em nada, é que eu sempre fui muito trabalhadeira, o tempo todo, eles viam que eu trabalhava muito. Acho que foi isso que ajudou, porque conheci todos os promotores, todos os juízes, todos os delegados que entraram, virei amiga deles, fui ficando, eles conheceram meu lado bom, porque o povo só conhecia o esse meu lado barulhento, eles me conheceram de perto, aí eu fiquei amiga, fui obrigada a virar amiga.

- E o que você pensa que o povo daqui pensa de você?

- Não vou dizer não, vou chamar meu advogado. (risos).

- A Edna sempre teve essa imagem de bruxa, de "hippie"?

- E eu sou tudo isso, bruxa, "hippie", e agora eu sou mística, porque eu estou sempre mudando, sou um ser tão mutante que eu acho que eles não conseguem me acompanhar.

- Uma coisa que eu acho bem legal é que agente vê a diversidade aqui na Rua do Lazer. Você teve algum problema com algum concorrente, alguém já tentou te copiar?

- Não, aqui não. Teve um pessoal que fez uma imitação lá em Brasília, eles me avisaram que iriam fazer uma imitação do Aravinda lá, e fizeram, só não sei o resultado.

- Quais são os benefícios e malefícios que você acha que a Rua do Lazer trouxe para a cidade?

- Acho que malefício não teve não, porque ficou um lugar realmente apropriado, todo mundo ficou reunido, grande diversidade de comida, várias casas de shows, lazer, um lugar para o turista, tudo de bom. Malefício, não teve nenhum não, porque tudo acabou ficando divertido, e ficou um lugar apropriado, toda cidade tem uma área de lazer, ficou sendo aqui. Não faz parte do meu interesse que eles façam o Plano Diretor, foi anterior ao Plano Diretor, aqui foi escolhido pelo turista, não fomos nós que escolhemos, aconteceu o Aravinda, aí começou tudo.

- Mas o Aravinda foi um marco, certo?

- Foi o primeiro, mas agora tá dando a volta por cima, por baixo, está virando um circuito, porque aqui não comporta mais, tem gente querendo alugar alguma coisa, mas não tem. Mas o Aravinda está à venda, estou querendo me libertar um pouco, viajar um pouco, visitar os netos, fazer umas peregrinações, conhecer o Caminho de Santiago, ir pra Índia, Londres.

- E com quantos anos você está?

- Cinquenta e seis.

- E o Aravinda?

- Faz vinte e quatro agora em maio (2007), é a idade da minha filha, quando engravidei que eu parei aqui.

- Então pode se dizer que você está satisfeita?

- Eu estou pra lá de satisfeita, tanto que estou entregando o ouro. (risos).

- E com a Rua do Rosário? Você está satisfeita?

- Com a Rua do Rosário ainda falta muita coisa. Falta o calçadão, o palco que eu sonho lá em baixo no fim da rua, uma guarita policial do outro lado, que nem lá em Recife antigo, para ter tudo sobre controle.

- E ainda tem problemas com a vizinhança, reclamações, gente lutando contra?

- Não, acho que não, acabou a resistência.

- Mas teve muita resistência?

- Teve. Até pouco tempo atrás, eu fiz uma festinha aqui, meus amigos deram a sugestão, o Aravinda ia fazer 22 anos, então fiz a festa e tive que comunicar os vizinhos, uma ultima resistência, as pessoas não querem fazer nada não, dá muito trabalho, e de barulho também estou fora. Agora eu tenho uma reclamação do camping aqui do lado, virou realmente o "point", é dia e noite barulhento com aquele som trance e rap, um desfile de [......], já foi reclamado várias vezes, mas não sei se foi por escrito, mas está esquisito isso aí. Fui roubada no carnaval, entrarão na minha casa, quando eu tava aqui na frente (a casa da Edna é ao fundo do Aravinda), ainda bem que não me encontrarão dentro de casa, né? E é uma coisa que todo mundo sabe, mas parece que ninguém vê aquelas coisas inexplicáveis, foi até falado em reunião.

- E a relação entre os donos de bares e restaurantes?

- Tudo que eu quero fazer para a rua eu falo com a Chiquinha, a Chiquinha é minha porta voz, eu não vou à reunião, tenho preguiça mesmo, por que tem que ter o pacote pronto e eu não agito o que eles querem. Eu falo pra ela e ela mais ou menos tenta, mas é difícil, e tem uma ala dali e uma do lado de cá, tem uma divisão, um muro mesmo.

- E existe alguma entidade, uma associação aqui da rua?

- Acho que não, da rua mesmo, não tem não, deveria ter. Falta união. É isso, essa é minha historia.

- O site pirenopolis.tur.br agradece a atenção e até a próxima.

Entrevista feita aos 12 de novembro de 2006 com Edna Lucena, proprietária do Aravinda.