Benvindo a Pirenópolis
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Chiquinha, de quando a rua era só para brincadeira

Todo mundo bem conhece a Chiquinha, que tinha um bar na Rua do Lazer há muitos anos, o Bar da Chiquinha, mas poucos sabem que a Chiquinha na verdade é Ana Maria Figueiredo, não Francisca, mas é carinhosamente chamada de Chiquinha. Carinhosamente é um bom termo, Chiquinha é uma pessoa carinhosa, meiga simpática e extrovertida. Nesta entrevista ela fala sobre sua infância na rua do Rosário e a história da rua do lazer, onde possuía um bar e restaurante.

[Entrevista] De quando o lazer era brincar

Todo mundo bem conhece a Chiquinha, que tem um bar na Rua do Lazer há muitos anos, o Bar da Chiquinha, mas poucos sabem que a Chiquinha na verdade é Ana Maria Figueiredo, mas é carinhosamente chamada de Chiquinha. Carinhosamente é um bom termo, Chiquinha é uma pessoa carinhosa, meiga simpática e extrovertida. Veio para rua quando ainda era criança, junto com sua família, quando era uma rua residencial, a Rua do Rosário, e ninquém imaginava que se tornaria o que se tornou, a famosa Rua do Lazer.

– Bom dia, Chiquinha. Conte-nos um pouco da sua historia aqui na Rua do Lazer. Como era a Rua do Rosário antes de virar a rua de lazer?

– A Rua do Rosário era uma rua que tinha muitas famílias grandes e muitas crianças onde a gente brincava nas ruas. A Rua do Lazer veio a partir do momento que chegaram os alternativos na cidade. Primeiro foi a Edna com o Aravinda, que não era Aravinda ainda, era uma lojinha onde ela vendia perfumes, as coisas naturais que ela fazia. E começou como uma lanchonete natural. Aí foi atraindo turistas e mais turistas para a cidade e eles mesmos entravam nas casas pegavam as mesas e colocavam na rua porque eles gostavam do ambiente da rua, o clima era mais fresco, a cidade era tranqüila, não tinha movimento de carro, e assim começou a rua do lazer. E ai veio o Varanda’s Bar, que acontecia a mesma coisa, e de dez anos pra cá virou mesmo a Rua do Lazer.

– Como foi sua infância aqui na rua? Haviam comércios? A maior parte dos moradores eram seus familiares?

– Era. Meu tio morava aqui, tinha seis filhos. Minha tia Rosa que morava na casa do meu avô. Ela não teve filhos mas era nosso porto seguro. E tinha meu pai, também. Nessa rua aqui tinha comércio antigamente, tinha loja e armazém, que hoje a gente chamaria de mercearia, que era um armazém de secos e molhados. Tinham dois armazéns e uma loja, que hoje é onde fica o Restaurante da Branca e o Encontro Marcado, aquela casa antigamente era uma loja. Quando cheguei aqui eu tinha oito anos de idade. As mães sentavam todas na porta da rua, que era aqui na porta da casa de mamãe, que hoje é o Empório do Cerrado, e ficava aquela meninada, era menino demais, em cada casa dessa tinha uns seis, sete, oito meninos. Era muito bacana.

– E vocês brincavam na beira do rio também?

– Não muito. A gente não ia para aquele lado, não, era mato, era só mato, então a gente só ia pra beira do rio de dia. A gente entrava por aqui, porque de lá pra cá era só mato e da ponte pra cima também era só mato. Então a gente só tinha livre acesso ao Poção da Ponte, que é daqui de baixo da ponte até a passagem, a pontinha do Pratinha.

– A rua também foi bem usada para as procissões, o folclore, a Folia do Divino sempre saiu daqui. Nas fotografias antigas a gente vê a procissão do divino passando aqui na rua do rosário, sempre foi muito usada para isso?

– É. Porque aqui é a central, desce da igreja da Matriz e vai para a Igreja do Bonfim, faz parte da rota.

– E como a gente pode observar nas fotografias antigas que as casas do lado de cá, o lado do seu bar, são mais antigas do que as do lado de lá, certo? Você tem mais ou menos idéia de quando essas casas foram construídas?

– Data é meio difícil, só se eu contar na memória quantos anos eu tenho pra cá. Mas aqui, por exemplo, tinha uma garagem, lá na Maira Olívia não tinha aquela parte da frente, aquela casona acima já existia, a casa da Neuza Amado não existia, alí para baixo só existia casa até o Roots e alí do Ponto.Com para baixo não existia nada. E para cima, a casa da Dona Ninha também não tinha, que é a primeira abaixo do Caffé Tarsia.. A casa da Dona Terezinha também é nova. Então do lado de lá em cima, tinha a casa da esquina, que é a Maçonaria, que é antiga.

– Mas há numa fotografia do começo do século XX onde a Maçonaria não existia

– No começo do século só tinham aqui essas casas do lado de cá mesmo, que são as mais antigas.

– Porque até a Pousada Walqueriana é de 1919 e nem é do período colonial e é a mais velha lá de cima.

– É a mais velha, a mais antiga.

– E esse calçamento? Originalmente, a gente vê nas fotos que era de pedra carrôla (pedras grandes echatas de beira de rio). Existe a idéia de tirar esses bloquetes, fazer um calçadão, reconstituir o calçamento antigo, o que você acha disso?

– Eu acho que a única coisa que a Rua do Lazer precisa fazer é o calçadão, principalmente por causa das mesas, e vai até abrir mais espaço ao pedestre. J á aconteceu várias vezes de senhores e senhoras de idade cairem da cadeira, inclusive uma vez aqui caiu um senhor que me preocupou bastante mas, graças a Deus, não aconteceu nada, mas foi um tombo feio, ele quase bateu a cabeça no meio-fio. Eu também acho que é uma segurança para o turista, alem do conforto.

– Aqui a gente tem uma matéria prima fantástica que é a pedra que a gente pode usar sem destoar da beleza do local. Mas esse calçamento aí, de bloquetes de cimento, é de que data? Você sabe mais ou menos quando eles colocaram esses bloquetes?

– Ele é mais antigo do que o pé de moleque. Eu não me lembro, deve ter mais de 40 anos, né?

– E o IPHAN? Você sabe se eles têm alguma restrição em relação a substituição deste calçamento, por ser patrimônio?

– Eu acredito que não, mesmo porque o bloquete não é coisa antiga. Mesmo o calçamento de pedra, mesmo que não seja a carrôla, sendo a pedra laje pra fazer o calçadão, eu acredito que seja até mais original. Além do que o bloquete é cimento, cimento armado.A pedra tem muito mais a ver, o calçadão tem muito mais a ver.

– E você tem saudades dos tempos de menina, aqui?

– Demais, nasci e fui criada aqui, então eu conheço a rua desde que ela não tinha nada até hoje que é a rua do lazer.

– E quando foi que você se interessou ou começou seu negócio aqui, o Bar da Chiquinha?

– Eu sempre vivi do comércio, porque uma das mercearias era de papai, então eu vivi no comércio, minha vida toda. Também trabalhei como garçonete muito tempo no Aravinda, sempre trabalhei com o público, com o povo, então foi daí que eu resolvi abrir uma portinha pra mim.

– E o imóvel aqui? É da família?

– É, era aqui que funcionava a mercearia de meu pai. Aí, eu montei uma lanchonetizinha com a autorização de papai que me abriu uma portinha, um espaçozinho, e continuou com a mercearia. Aí, após o falecimento dele, ninguém quis tomar conta do armazém e meus irmãos cederam para mim. Aí, eu abri tudo e fiz o restaurante.

– Fazem quantos anos que você tem o restaurante aberto?

– Nove anos

– E nesse tempo todo, ou até mesmo antes, já que você trabalhava aqui no comércio, em relação ao público, você sentiu alguma diferença, alguma mudança? Como era o público há nove, dez anos atrás? E como é o público hoje?

– Não teve diferença. Sempre teve públicos de todos os gostos, desde doidões até as famílias que querem tranqüilidade, sempre existiu.

– Antes aqui era um bairro residencial, havia comércio mas não era um comércio barulhento como é hoje, que é cheio de bares com música e tal. E em relação aos vizinhos, o pessoal que morava aqui, existiu alguma resistência, crítica ou algo como um movimento contra o estabelecimento da Rua do Lazer?

– Não, de maneira nenhuma. Nunca foram contra. Inclusive eles começaram a morar no fundo e alugar a frente. Viram também que é uma fonte de renda. O que eles resistiram, a princípio, foi a questão do fechamento da rua, mas a gente entrou num acordo. A gente consegui o que hoje é a rua do lazer por um decreto-lei. Então a gente entrou n um acordo, eles (os moradores) tem livre aceso e, se for o caso de um emergência ou uma ambulância, qualquer coisa, a gente tira as mesas da rua na hora, a gente acabou entrando num acordo.

– Em relação ao comércio, como a maioria dos comerciantes aqui da Rua do Rosário é de fora e acabam trazendo consigo outras culturas, você acha, ou percebeu, algum choque cultural significativo ao povo da cidade?

– Não, acredito que não. Se houve, acredito até que deva ter havido, uma deturpação, vamos dizer assim, do turista na cidade, aquele choque cultural mesmo, mas acho que não foi significativo, não. Por que eu não tive, eu já convivia com as pessoas que vieram de fora para cá, então eu já não tive esse choque cultural, mas teve algumas pessoas que teve, sim. Tiveram dificuldades para ambientar as novas regras que vão surgindo, mas é o que eu falei pra você no princípio, a gente vai contornado, esclarecendo uma coisa ou outra, até a gente entrar em acordo.

– Vocês têm alguma forma organizada aqui? Existe uma associação ou um grupo que reuni os empresários da rua?

– Não. A gente costuma fazer uma coisa: quando tem alguma coisa que está nos perturbando, ou perturbando a rua, perturbando os turistas, pessoas que vêm aqui para visitar e ficarem tranqüilos, a gente se junta e vê o que é melhor para todos. Mas a gente tem sim umas regrinhas, que toda vida sempre foram respeitadas, que é o limite das mesas, os limites da rua. Houve um impasse quando estavam fechando a rua para os pedestres, a gente entrou na justiça, pediu para o promotor, então ele liberou para a gente, junto com a prefeitura, a faixa que hoje existe, a faixa de pedestre no meio da rua, que viabiliza o ir e vir das pessoas.

– Mas vocês já tentaram fazer algo mais organizado?

– Já tentamos varias vezes, mas infelizmente é um tal de entra e sai, entra e sai de estabelecimentos e de pessoas diferentes, que fica difícil de estabelecer uma associação e, alem do que, a falta de união é grande, mas as regrinhas desde o princípio existem e são respeitadas, que é não servir na mesa do outro, a não ser com autorização, o limite da casa para colocar a mesa, o estar um sempre respeitando o outro, o respeito ao canal de pedestres, o som ambiente respeitando o outro, então a gente tem essas regrinhas que as pessoas até respeitam.

– Vocês já tentaram organiza algum evento ou algum show para todos na rua?

– Há alguns anos até ganhamos da prefeitura um palco. Nós fizemos alguns shows, mas não foi pra frente, não foi legal. Acho que a Rua do Lazer, mesmo com esse som e tal, não é sempre que viabiliza fazer shows e eventos aqui na rua, porque na realidade as pessoas vem aqui para Pirenópolis e gostam de vir para a Rua do Lazer pra sentar, bater um papo, conversar, jogar papo fora. Eu acho que a rua do lazer é isso, tranqüilidade.

– E para o futuro? Como você imagina a Rua do Lazer? O que você gostaria que a Rua do Lazer fosse ou viesse a ser? Tem alguma imagem, algum sonho para a Rua do Lazer?

– Não. Está bom do jeito que está. Os estabelecimentos que entram na rua é que tem que encarar essa nossa tranqüilidade.

– Mas não tem um entra e sai o tempo todo?

– É, mas agora, no momento, nós estamos mais ou menos estabilizados. Só teve um que entrou agora por último, que não quero nem falar, viu? Mas também teve o Caldo 24 Horas, que foi muito bom para rua.

– Aqui abriu um restaurante novo?

– É a Branca que trocou de lugar, mas foi melhor, ficou mais caliente, ficou mais bonitinho, mais arrumadinho. Por que, queira ou não, há uma diferenciação de qualidade aqui na Rua do Lazer.

– Como assim? Há diferenças em relação a outro lugar de Pirenópolis ou mesmo entre um e outro lugar aqui da rua?

– Entre um e outro. Cada um aqui tem a sua qualidade, a Rua do Lazer é uma rua diferenciada porque todo mundo procura dar e manter qualidade. Não vou dizer que outros lugares não tem, mas já tem outros lugares que não se preocupam com isso. É isso que eu quero dizer.

– E como seria o perfil do seu público e o perfil do seu produto, você consegue identificar?

– O perfil do meu produto é porque, como eu sou goiana, toda a alimentação que eu sirvo é preparada na hora, com a máxima qualidade, a gente procura fazer tudo do melhor, mas bem caseiro, bem goiano, tem uma coisinha ou outra de diferente, mas o normal é bem caseiro.

- E qual seria o seu carro chefe ou seu cardápio principal? O que é mais procurado pelo publico?

– É a picanha na chapa, mas é difícil pra mim te dizer porque eu vendo muito de tudo.

– Mas você tem caldo também, empadão...

– É tenho caldo, empadão, risoto goiano, que é arroz com carne sol, tenho arroz com costelinha de porco, arroz com galinha caipira, pequi, guariroba, tenho arroz com suã, rabada, peixe na telha.

– E tem música ao vivo no final de semana?

– Nem todos. Mas agora a gente está fazendo mais esporadicamente música ao vivo.

– Existem problemas como roubos, confusão, entrar nos restaurantes de noite e assaltar, coisas desse tipo?

– Teve ali na casa de chá, mas entrou pelos fundos não foi por essa rua aqui, não. A gente nunca teve grandes problemas com essas coisas aqui, a gente tem um probleminha aqui, outro ali. Normal, normal não é, né? Mas nada muito agressivo. Mas o que incomoda muito nessa rua do lazer são esses hippies.

– Esses micróbios que ficam ai pelo chão, né?

– É. Esses micróbios mesmo. Nem os nossos bobinhos, como o Dominginhos, incomoda tanto.

– Porque? Eles ficam assediando os turistas?

– É, ficam assediando. Metem a mão na mesa, ficam mexendo na comida dos clientes, são abusados, são agressivos.

– E tem aumentado o numero deles, você tem percebido?

– Por estes dias está tranqüilo (estamos em fevereiro), porque está na época deles estarem nas praias, mas daqui a alguns dias, estará na época deles voltarem, aí no meio do ano vira uma coisa esquisita de tanto micróbio.

– Aqui em Pirenópolis, a gente tem esse termo que se usa de hippies.Mas assim os hippies que vieram a uns 20 e tantos anos atrás, como exemplo o povo da Terra Nostra, eles eram diferentes desses hippies de hoje em dia, não é?

– Eles não eram hippies, eles eram alternativos, pessoas instruídas, pessoas estudadas, pessoas com conhecimentos, tanto que transmitiram conhecimentos para várias pessoas da cidade, e que hoje ganham dinheiro com isso, como exemplo o povo da prata, esses são os alternativos, pra mim os hippies são os micróbios, porque não tem onde morar, não tem endereço, dormem com os cães, é aquela coisa esquisita. Os hippies, na realidade, naquela época, na década de 70, eram os alternativos que queriam viver em paz e que queriam viver naturalmente. O povo não consegue diferenciar hippies de alternativos, porque hippie é uma coisa e alternativo é outra. Os alternativos querem viver bem com a natureza, os hippies não, os hippies são os micróbios que vivem na rua, bebendo cachaça, perdidos, sem tomar banho e enchendo o saco de todo mundo. E além do que temos a feira de artesanato, não tem que ficar mangueando na rua e se eles querem valorizar o trabalho deles, então que eles fiquem na praça, onde é destinado para isso, e não ficar atrapalhando as pessoas se alimentarem, porque na realidade as pessoas aqui na Rua do Lazer jantam na rua.

- Chiquinha, muito obrigado pela atenção. O site pirenopolis.tur.br agradeçe imensamente esta colaboração.

Entrevista concedida a Mauro Cruz no dia 25 de fevereiro de 2007, numa mesa do Bar e Restaurante Chiquinha.